por Carlos Castelo
É comovente o momento em que um carro novo chega ao condomínio. Não pelo carro em si (que geralmente é grande, preto e tem mais sensores que um caça F-35), mas pela expressão de esperança no rosto do proprietário. É o olhar de quem acredita que está começando uma nova fase da vida. Uma fase com bancos de couro.
A enorme SUV entra devagar pela garagem, acompanhada por olhares curiosos. Sempre há alguém que observa de braços cruzados, como se estivesse fiscalizando uma obra irregular. E está.
Porque o primeiro problema aparece antes mesmo do motor parar: o carro não cabe direito na vaga.Só cabe, se o motorista respirar fundo, girar o volante com fé e talvez pedir licença ao universo. Mas fica aquele detalhe: a porta abre só até o joelho. Ou o retrovisor invade o território soberano da vaga vizinha. Ou a traseira avança com arrogância sobre a faixa amarela, como quem diz: “O mundo mudou. Adaptem-se.”
No começo, é só um ajuste. O proprietário da vaga 32 passa a estacionar em três movimentos extras. Desenvolve uma coreografia complexa que mistura baliza, ioga e pensamento positivo. Sai da SUV pela porta do passageiro, às vezes pelo porta-malas, numa demonstração de flexibilidade.
Os vizinhos fingem não notar. Durante alguns dias, reina a diplomacia da garagem. Trocam-se sorrisos tensos. Comentários neutros.
— Carrão, hein?