11:32A tragédia da vaga 32

por Carlos Castelo

É comovente o momento em que um carro novo chega ao condomínio. Não pelo carro em si (que geralmente é grande, preto e tem mais sensores que um caça F-35), mas pela expressão de esperança no rosto do proprietário. É o olhar de quem acredita que está começando uma nova fase da vida. Uma fase com bancos de couro.

A enorme SUV entra devagar pela garagem, acompanhada por olhares curiosos. Sempre há alguém que observa de braços cruzados, como se estivesse fiscalizando uma obra irregular. E está.

Porque o primeiro problema aparece antes mesmo do motor parar: o carro não cabe direito na vaga.Só cabe, se o motorista respirar fundo, girar o volante com fé e talvez pedir licença ao universo. Mas fica aquele detalhe: a porta abre só até o joelho. Ou o retrovisor invade o território soberano da vaga vizinha. Ou a traseira avança com arrogância sobre a faixa amarela, como quem diz: “O mundo mudou. Adaptem-se.”

No começo, é só um ajuste. O proprietário da vaga 32 passa a estacionar em três movimentos extras. Desenvolve uma coreografia complexa que mistura baliza, ioga e pensamento positivo. Sai da SUV pela porta do passageiro, às vezes pelo porta-malas, numa demonstração de flexibilidade.

Os vizinhos fingem não notar. Durante alguns dias, reina a diplomacia da garagem. Trocam-se sorrisos tensos. Comentários neutros.

— Carrão, hein?

— Pois é… elétrico.

Mas o conflito está apenas aquecendo os pneus. Logo surge o primeiro bilhete anônimo no para-brisa. O bilhete anônimo é o WhatsApp da covardia analógica. Geralmente começa educado.
“Prezado morador, observei que seu veículo…”
Ninguém, na real, observa. A pessoa vigia.
Depois vêm as reuniões de condomínio, que são a ONU com mais rancor e sem tradutores. O tema surge no item “Assuntos Gerais”: o purgatório da pauta.
— Precisamos falar sobre certos veículos desproporcionais — diz alguém, olhando fixamente para o teto.
O dono do SUV finge não entender. Inclusive passa a usar eufemismos.
— Não é grande. É imponente.
Nesse momento, formam-se alianças. Os donos de carros compactos citam a planta original do prédio como se fosse a Constituição de 88. Os proprietários de picapes argumentam que a evolução natural da espécie automotiva não pode ser contida por linhas pintadas no chão.Há propostas radicais: redistribuir vagas, contratar um mediador, reduzir o carro na lixadeira.
E assim a garagem, que deveria ser apenas um lugar para estacionar vaidades sobre quatro rodas, transforma-se em campo de batalha. Porque, no fundo, o problema nunca foi o tamanho do carro, mas o tamanho do orgulho.
Moral: a vaga ideal é sempre a do outro.
(Publicado no Estadão)
Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.