Há um instante na carreira de um cronista em que ele descobre que não escreve textos: redige reincidências. É como ser pego atravessando fora da faixa pela própria consciência. Foi o que me aconteceu hoje, quando, tomado por uma súbita vocação produtiva, enviei uma crônica ao Blog do Zé Beto.
A resposta veio rápida.
— Já publicamos.
Não havia emoji. Não havia exclamação. Apenas a constatação de que minha criação já tinha vivido, circulado e, possivelmente, sido comentada por alguém.
Fiquei pensativo. Não é comum descobrir que seu presente já virou passado sem que você tenha participado do processo. Mas não desisti. Um cronista, antes de tudo, é um insistente profissional. Vasculhei meu computador, território arqueológico onde convivem arquivos chamados “crônica_nova”, “crônica_nova2”, “crônica_nova_valendo” e o enigmático “usar_essa_um_dia”.
Escolhi uma. Reli e a enviei.
Nova resposta.
— Essa também já veio.
Foi aí que senti o chão literário ceder sob meus chinelos. Comecei a suspeitar que Zé Beto possui um sistema avançado de previsão cronística. Talvez uma equipe. Talvez um algoritmo. Talvez um tiozinho curitibano que fica dizendo: “Isso ele já escreveu”.
Passei a desconfiar de mim mesmo. Será que tenho apenas quatro ideias, todas meio disfarçadas? Será que minha obra completa cabe numa sacola de supermercado reutilizável? Será que escrevo a mesma crônica desde 2007, mudando só o clima e o grau de indignação?
Para evitar novo constrangimento, resolvi inovar. Nada de cotidiano. Nada de política. Nada de observações profundas sobre filas, elevadores ou o comportamento dos gatos. Escreveria sobre algo realmente original: o medo de repetir.
O medo de repetir é traiçoeiro. Ele começa como uma dúvida elegante e termina como paranoia criativa. Você passa a revisar a própria vida. Já contei essa história? Já fiz essa piada? Já respirei desse jeito antes?
Cogitei enviar a Zé Beto uma página em branco. Mas vai que ele responde:
— Publicamos em 2011. Grande repercussão.
Então aceitei meu destino e escrevi esta crônica absolutamente inédita, concebida sob rigoroso controle antirepetição. Um texto fiscalizado desde a primeira vírgula. Uma narrativa que nasceu olhando para os lados, com medo de encontrar a si mesma vindo na direção contrária.
Se ela for publicada agora, será um triunfo. Se não for, paciência: seguirei sendo um autor inédito: em segunda mão.