7:18Francisco de Assis, místico, louco, pelego, leproso

por Mario Sergio Conti, na FSP

Pela primeira vez desde o século 13, seus despojos estão expostos na Basílica de Assis. Em seu último texto, contou que a lepra determinou seu rumo

Não dá outra. É entrar numa livraria italiana e topar com uma pilha de livros sobre Francisco de Assis. O renovado interesse no mais popular dos santos é fruto da fanfarra vaticana, do Ano Jubilar Franciscano, convocado por Leão 14 para exaltar os 800 anos do “trânsito” —eufemismo para morte– do playboy que renegou a riqueza para viver ao rés do chão.

Pela primeira vez desde o século 13, os despojos do Poverello, o Pobrezinho, foram tirados da tumba e expostos na Basílica de Assis. Cercados pelos crédulos afrescos de Giotto que narram sua história, ali ficarão até o dia 22, atraindo caravanas de fiéis.

Mas não é só por obra e graça do marketing da Santa Madre que se faz folia com o beato que viu na sua doidice o dedo de Deus: “O Senhor me revelou ser Sua vontade que eu fosse o último louco da Terra”, disse.

Francisco ressurgiu nos últimos tempos com a batina de padroeiro de causas atuais, como a ecologia (poeta, celebrou a natureza, o Irmão Sol e a Irmã Lua), o feminismo (o forte afeto por santa Clara) e a defesa dos animais (teria sossegado um lobo e pregava aos pássaros).

A esse apostolado se soma a estranha figura que, ainda em vida, arrebatou milhares de jovens, levando-os a trocar famílias e ofícios pela renúncia radical aos bens terrestres, empregos, cargos, todo tipo de propriedade, até dinheiro.

Sua única posse era um hábito encardido, amarrado na cintura com corda. Ria à toa, dançava, cantava, só admitia o trabalho manual e não remunerado, proibia analfabetos de aprender a ler, achava que livros eram coisa de ricos, de prepotentes que usavam o saber para espezinhar o populacho.

Nem sempre foi assim. Era filho de um novo-rico, o abastado comerciante de tecidos Pietro de Bernardone. Ao nascer, o pai estava na França e a mãe o batizou de Giovanni. Ao voltar da viagem, teimou em chamá-lo de Francesco, palavra que significava “francês”. Virou Francesco.

Teve a educação de um pimpolho da classe em ascensão, a mercantil, emulando os usos e costumes da nobreza: roupas de luxo, caros corcéis, literatura cortês, galanteios em francês, culto às armas, o dolce far niente. Cacifava banquetes da sua galera e com ela se embebedava.

No “Testamento”, seu último texto, conta que a lepra determinou seu rumo. Tinha nojo de leprosos —disformes, capengas, de pele podre, sem dedos, batendo castanholas para alertar os sãos de que se aproximavam. Como haviam sido concebidos em pecado, dizia-se, ficavam leprosos.

Aos 25 anos, em crise existencial, de súbito se condoeu de um deles. Apeou do cavalo, beijou-lhe a mão e abraçou-o. Passou a frequentar leprosários e a dar aos carentes dinheiro a rodo —o pecúlio do pai, que, furibundo, pressionou-o a tomar tento na vida. Em vão. Bernardone reclamou ao bispo.

O prelado ordenou ao moço que não dissipasse a fortuna paterna. O asceta despiu-se, ficou nu em pelo e, com as vestes na mão e moedas em cima, disse: “Devolvo a Pietro de Bernardone o dinheiro pelo qual tanto se afligiu e as roupas que me deu; de agora em diante direi ‘Pai nosso que estás no céu’, não mais ‘Pai meu, Pietro de Bernardone’”.

O novo pobre seguiu caminho e 12 jovens aderiram à sua via crúcis. Da noite para o dia eram dezenas, centenas, um movimento que encurralou a cúria romana. Escancarou-se o contraste entre o pregador ardente e o cardinalato de obesos plúmbeos, escarrapachados em palácios.

Francisco jamais hostilizou o alto clero. Submeteu-se sem triscar quando a cúpula pastoril pôs o rebanho franciscano no aprisco, obrigando-o a afrouxar suas regras: Roma locuta, causa finita; Roma falou, caso encerrado.

Contudo, as tensões prosseguiram. Enquanto o papado armava a quinta cruzada de combate ao islã, o místico de Assis viajou ao Oriente Médio para converter ao Evangelho o sultão do EgitoPalestina e Síria — e fracassou.

Não fazia política, mas a política o fazia. Outro italiano, o comunista Antonio Gramsci, disse que ele era uma peça na engrenagem de espoliação na Idade Média, pois sua fé levava ao conformismo e à passividade, servia de colchão para amortecer atritos entre mandantes e mandados. Um pelego, em suma.

Foram penosos os últimos tempos de Francisco no vale de lágrimas. Quase cego, padecia de achaques no fígado, baço e estômago —indícios da lepra que teria contraído na mocidade. Era pele e osso ao pedir que o pusessem nu no chão, para ser enterrado “como os criminosos”. Expirou no poente de 3 de outubro de 1226. Tinha 44 anos.

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