6:15Entre braços e madeira

Fotos e texto de Ricardo Marajó

Era um dia como outro qualquer.
Eu estava na Rua da Cidadania do Pinheirinho e, do alto das passarelas de ferro, observava o sentar e levantar das pessoas nos bancos da rua.
Pensei em quantas histórias já passaram por aquelas tábuas de madeira. Já imaginou se os bancos falassem?
Talvez falem.
Se a gente prestar atenção, eles sussurram.
Resolvi perder alguns minutos ali — e logo percebi como cabem tantas vidas em um intervalo tão curto de tempo.
Primeiro, um senhor e uma senhora. Sentaram-se devagar, como quem já aprendeu a conversar com o tempo. Falavam de filhos, de netos, de erros e acertos acumulados pelo caminho. Com um orgulho manso, disseram que estavam juntos havia mais de cinquenta anos e que já tinham atravessado de tudo. Antes de se levantarem, resumiram a vida em uma única palavra: gratidão.
Depois, um homem de meia-idade. Jornal aberto, pernas cruzadas. As páginas estalavam devagar entre os dedos, como se cada notícia fosse uma tentativa de compreender o dia. Nem sempre se lê para saber — às vezes se lê apenas para acompanhar o mundo passando.
Mais tarde, dois homens dividiram o mesmo banco — mas não a mesma distância. Um segurava papéis com firmeza, a pasta encostada ao peito, esperando diante do SINE. O outro se curvava sobre a tela luminosa do celular, escrevendo para algum lugar longe dali. Dois tipos de espera. O mesmo pedaço de madeira.
Quando saíram, uma mulher ocupou o banco. Abriu as sacolas com cuidado, como quem confere não compras, mas garantias. Pequenos mantimentos. Pequenas vitórias.
Por fim, um pai chegou com duas crianças. O banco deixou de ser pausa e virou abrigo. Colo, peso, afeto. De repente, o mundo inteiro cabia ali, entre braços e madeira.
Foi então que entendi:
bancos de praça não são móveis urbanos —
são pequenos pit stops da vida.
É ali que as pessoas desaceleram por um instante,
organizam os pensamentos,
checam as energias
para atravessar o dia.
Fotografar, às vezes, é isso:
não sair à caça de imagens,
mas esperar em silêncio,
organizar o olhar
até que a vida comece a sussurrar
— e o inesperado nos surpreenda.

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