


Fotos e texto de Sergio Brandão
Curitiba tem uma elegância rígida, quase coreografada. Hoje à tarde, na esquina da rua Riachuelo com a Alfredo Bufrem, me deu esta cena do teatro do absurdo. De longe, quem subia a rua via algo perturbador: um braço humano, inteiro, projetando-se para fora de uma lixeira, com a mão estendida em um ângulo que oscilava entre o aceno e o desespero. Me prendeu a postura da mão que não estava apenas jogada; os dedos pareciam exercer uma força estática contra a borda da lixeira. Havia uma tensão no plástico, como se o manequim, em um último espasmo de dignidade, tentasse se agarrar à superfície para não ser engolido pelo resto do lixo. Era um náufrago urbano, tentando emergir de um mar de indiferença.
Me aproximando, o susto deu lugar à constatação: era apenas plástico. Um braço de manequim, outrora expositor de luxos ou de liquidações, agora apenas entulho.
Para o transeunte apressado, aquele braço não era um corpo, nem um objeto, nem um grito; era invisível. Se não está na vitrine, não existe.
Há uma ironia cruel no descarte de um manequim. Ele é fabricado à imagem e semelhança do ideal humano para nos convencer de que precisamos de algo mais. Mas, assim que a loja fecha ou a moda muda, é desmembrada é jogada fora.
Nas três fotos, a história se conta sozinha. Na primeira, de longe, o braço é um detalhe surreal na paisagem. Na segunda, a proximidade revela o abandono. Na última, quase um close, as ranhuras no plástico e a sujeira da rua mostram que até a beleza simulada tem fim, misturada em embalagens de comida e papeis amassados.
Passo pela riachuelo e pela xv desde 1978, diariamente. Mudanças para pior, sempre.