6:09Os fundos e os alçapões do caso Master

por Alexandra de Moraes, na FSP

Explicar um esquema que dependia da própria confusão é tarefa assombrosa; ataques óbvios ou velados ao jornalismo mostram que ainda há muito o que cavar

Fundo Arleen, fundo RWM Plus, fundo Maia 95. Fundo Leal, fundo Hans 95. Coube ao jornalismo exibir esses e outros nomes de uma teia que seria usada pelo Banco Master nas fraudes ora investigadas.

O problema é entendê-los, os pontos e a teia. Os nomes se embaralham entre velhos conhecidos e novos suspeitos. Há um detalhe especialmente cruel: a operação toda aparentemente dependia da própria confusão, e traduzi-la não é tarefa simples. Além disso, a história confusa se mistura com ataques, mais óbvios ou menos chamativos, ao próprio exercício do jornalismo, e evidenciá-los é também compromisso com o leitor.

Folha revelou a ligação de irmãos e um primo do ministro do STF Dias Toffoli com o fundo Arleen, que teria feito parte da sociedade responsável pelo resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR). O resort Tayayá pertencia em parte à família Toffoli e teve fundos geridos pela recém-liquidada Reag.

Já o Estado mostrou que o “pastor e empresário” Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, maior doador das campanhas de Tarcísio de Freitas e Jair Bolsonaro em 2022 e alvo de operação nesta semana, estaria por trás do fundo que comprou participação dos Toffoli no Tayayá. Foi para lá também que o ministro pegou um jatinho da FAB em 2019, um ano do barulho.

As teias e conexões são intrincadas. Podem não ser nada, podem ser apenas coincidência, podem ser alguma coisa estranha. As coincidências, porém, abundam, e não há como deixar de observá-las, como o caso da outra viagem de jatinho do ministro Dias Toffoli, mais recente, com o advogado Augusto de Arruda Botelho. Este defende Luiz Antonio Bull, “diretor de Compliance do Master e preso na mesma operação da PF que mandou Vorcaro ao cárcere”, informava Lauro Jardim, no Globo.

Naqueles dias finais de novembro, Toffoli assumiu a relatoria do caso Master no STF. Foi uma vitória para a defesa de Vorcaro, cujo plano era justamente tirar as investigações da Justiça Federal do DF e mandá-la para o Supremo.

O pivô da mudança seriam documentos sobre a possibilidade de constituição de um fundo para um empreendimento em Trancoso, na Bahia, que envolveria o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA).

Diferentemente do caso do resort Tayayá, porém, ainda não se revelaram digitais do Master no negócio de Trancoso. Mesmo assim, o nome do deputado serviu para jogar a investigação para cima.

Muita água passou sob a ponte do caso Master, até que na terça (13), o site Poder360 revelou que o ministro Alexandre de Moraes ordenou de ofício a abertura de um inquérito para investigar a Receita Federal e o Coaf por “uma possível quebra de sigilo fiscal de ministros da Corte e de seus parentes”.

O foco seriam a teia que enredaria os parentes de Toffoli e os dados sobre o contrato com o Master da mulher e dos filhos de Moraes. A existência e o valor de R$ 129 milhões do contrato do escritório Barci de Moraes foram revelado pela colunista Malu Gaspar, no Globo, que se tornou alvo de ataques pela apuração. Ela mostrou, ainda, como como influenciadores ganharam dinheiro para defender o Master nas redes.

“Anomalia jurídica” foi como advogados e acadêmicos do direito classificaram a determinação de Moraes, segundo a Folha. Obviamente, ela recende ao inquérito das fake news, aquele que nunca termina –e foi aberto em 2019, por coincidência o ano do jatinho da FAB no Tayayá.

notícia daquela época, aliás, tem informações interessantes. “Em agosto [de 2019], a Folha revelou que o procurador Deltan Dallagnol incentivou colegas em Brasília e Curitiba a investigar Dias Toffoli sigilosamente em 2016, numa época em que o atual presidente do STF começava a ser visto pela Lava Jato como um adversário disposto a frear seu avanço.”

“Entre outras suspeitas levantadas pelo procurador estava uma suposta sociedade de Toffoli em um hotel no interior do Paraná, o mesmo que foi visitado pelo ministro no fim de semana.”

O ano de 2019 apareceu em outra notícia desta semana. Na sexta (16), o Valor revelou que “o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) concedeu um empréstimo emergencial entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões para o Banco Máxima [em] 2019, como parte da operação que permitiu a Daniel Vorcaro assumir o controle do banco, rebatizado posteriormente de Master”.

São numerosas as coincidências, mas ainda muito inferiores às dúvidas, que se estendem dos casos atuais para um passado igualmente embaraçado. Seria mais fácil se o jornalismo não estivesse, também ele, cheio de nós a desatar.

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