
Texto e foto de Ricardo Marajó
Eu estava ali, no coração da Rua XV de Novembro, no centenário Bar Mignon, saboreando — na minha opinião — o melhor cachorro-quente da cidade.
Foi quando a cena me chamou a atenção.
Em meio à movimentação constante e ao caos contínuo da cidade, alguém permanecia ali, pacientemente encostada numa pedra com informações sobre o Bondinho da Leitura.
Como se esperasse o próprio bonde.
Ou como se apenas observasse o movimento — que, às vezes, é mais revelador do que participar dele.
O bonde estava ali desde 1973. Imponente, silencioso, um monumento da cidade.
Não avançava nem recuava — apenas existia, como certas promessas que a vida faz e esquece de cumprir.
As pessoas passavam borradas pelo tempo, quase fantasmas na mente da moça. Corpos apressados, rostos diluídos, passos sem memória. A cidade seguia em movimento, mesmo quando parecia parada.
E talvez ela não soubesse: ficar imóvel também é uma forma de deslocamento — geralmente para trás.
Encostada ali, a mulher observava. Quem sabe na esperança de embarcar num bonde que, há muitos anos, já não operava mais. Havia em seu corpo a postura exata de quem acredita que algo ainda vem, mesmo quando tudo indica que já passou.
Esperar, às vezes, vira morada.
Há gente que, de tanto esperar, pensar e planejar o próximo passo, não vê a vida passar. Passa o tempo inteiro sem sair do lugar. Confunde paciência com destino. Acha que movimento é concessão, quando, na verdade, é escolha.
E cria fantasmas — tudo aquilo que inventamos na mente para justificar a própria inércia.
O bonde da vida não apita. Não chama. Não pede licença.
Ele só passa.
Embarcar não é uma decisão — a viagem já começou.
O resto é permanecer parado, colecionando desculpas, horários, estações que nunca chegam.
A cidade ensina sem cerimônias:
quem não inventa novas formas de se locomover vira paisagem.
E paisagem, por mais bonita que seja, nunca chega a lugar algum.
Talvez ser sagaz seja isso:
descer do meio-fio, atravessar a rua, caminhar quando não há trilhos.
Criar movimento onde só existe espera.
Projetar-se diante do medo.
E os piores fantasmas não vêm da cidade, nem do tempo, nem do acaso.
Eles nascem quietos, dentro da gente.
São feitos de adiamentos, justificativas e promessas que nunca se movem.
São os fantasmas que criamos para não sair do lugar