de Carlos Castelo
§ Existe, no Brasil, uma estranha lógica que transforma qualquer filme medianamente competente em patrimônio imaterial da nação antes mesmo dos créditos subirem. Foi assim com Ainda Estou Aqui, um drama digno, sim, mas que, empurrado por uma comoção coletiva parecida com a que se tem quando um caminhão de cerveja capota na rodovia, virou “obra-prima do século” nos mais distantes rincões do país.
Agora temos Agente Secreto, que nem ganhou o Oscar e já desfila como destaque da Troça Carnavalesca Pitombeira dos Quatro Cantos, em Olinda. A venda de suas camisas amarelas deve atingir a marca de cinco mil unidades em breve. Fato que nunca aconteceu desde a fundação da agremiação em 1947. Isso apenas porque o personagem Marcelo, vivido por Wagner Moura, a ostentou no longa.
Eis o dilema: como assistir a um filme quando ele já chegou trajado de hino nacional, com direito a buzina e vuvuzela? O brasileiro, como sabemos, vive entre o viralatismo e o carnavalismo. Hollywood manda um aceno e a gente já responde com abadá.
Será que em outros países isso acontece? Talvez. Mas duvido que na Suécia alguém grite “É de Malmö pro mundo!” porque um cineasta local ganhou menção honrosa em Cannes. Lá, cinema ainda é arte. Aqui, é bloco mela-mela.