

Texto de Carlos Castelo e fotos de Carlos e Pedro Castelo
Há memórias que parecem nascer já com aquele filtro saturado do Martin Parr: cores fortes e um humor que se esconde no detalhe mais improvável.
Em 2016, quando meu filho Pedro @niuder e eu entramos em sua exposição no MIS, sentimos exatamente isso: era como se tivéssemos adentrando no cérebro bem-humorado do fotógrafo mais antropólogo que a fotografia jamais produziu.
Na primeira sala, uma penumbra elegante e misteriosa. Por um instante temi que Parr estivesse escondido atrás de um painel, pronto para flagrar meu melhor ângulo desajeitado.
Pedro caminhava devagar, degustando tudo com calma. E eu observava as mulheres de biquíni em forma de fotografia gigante, imaginando quantas loções bronzeadoras impregnaram aquele ambiente. Era uma praia onde ninguém suava, ninguém queimava, ninguém gritava “olha o sorvete!”. Havia apenas a ironia de Parr sobre aquelas férias artificiais.
Martin Parr se foi no sábaddp. Mas ao rever esses cliques de nosso passeio, percebo que sua ausência é, de certo modo, uma presença estendida. Porque Parr não fotografava pessoas, fotografava humanidade. E isso não morre. Está no homem de sandálias, no turista com câmera, na família espremida na orla, nos absurdos gastronômicos, e também em nós dois, pai e filho, caminhando por corredores de um museu como quem entra em um álbum de fotografias insólito.
Obrigado, Parr, por nos ensinar que a beleza do mundo está justamente no que ele tem de mais esquisito. E que rir disso é talvez a forma mais amorosa de olhar para a vida.