10:08IA desenterra pessoas e quer deixá-las eternamente vivas

por Mario Sergio Conti, na FSP

Defunto reaparece como por magia: anda, fala e comenta até o que não viu, o presente. E se essa não for a vontade de quem já morreu?

O progresso da tecnologia é tão veloz que, em vez de ajudar, complica as coisas. Morrer, por exemplo, ficou mais difícil. Se não está ao alcance da mão, a imortalidade é uma ameaça crescente. “Seu Jair” vivo para sempre, já pensou?

Não se trata de uma eternidade qualquer, mas da gerada pela inteligência artificial, a IA. Se hoje ela ainda tem muito de arremedo, daqui a pouco poderá enganar, além dos trouxas de sempre, os que se julgam espertos.

Imortalidades“, do ensaísta Eduardo Giannetti, é um bom guia para entender como a eternidade mudou até chegar à inteligência artificial. O livro não a disseca porque os ressuscitados por algoritmos só saíram em massa da cova depois que o livro foi publicado, em junho.

Giannetti lista os quatro tipos de imortalidade vigentes até então. A primeira é espichar a vida. Putin e Xi, os mandachuvas da Rússia e da China, falaram sobe o assunto em setembro, numa cerimônia em Pequim, e um microfone abelhudo captou a conversa.

Putin disse: “A biotecnologia está em constante progresso. Os órgãos humanos podem ser transplantados continuamente. Quanto mais você vive, mais jovem fica, pode até tornar-se imortal”. Ao que Xi comentou: “Alguns preveem que já neste século as pessoas poderão viver até 150 anos”.

A segunda imortalidade está na suposição de que os humanos continuem a viver mesmo depois da morte. É a fé que embasa as grandes religiões, do islamismo ao cristianismo. (Os crentes não explicam por que, se viverão para sempre, consideram decisivos seus primeiros 150 anos, caso Xi esteja certo).

A terceira variante é o legado deixado por alguém. Seus descendentes propriamente ditos podem ser a herança. Ou então obras: livros, músicas, construções etc. Ou o enriquecimento, tanto monetário como espiritual, de um grupo, seja ele sua família, o país ou mesmo a humanidade.

A última categoria arrolada por “Eternidades” é a compressão do infinito num instante. Ela surge no transe amoroso —o “infinito enquanto dure” de Vinicius—, no êxtase com drogas ou em experiências místicas. O arroubo de Giannetti é com a “Partita para Violino nº2”, de Bach, que para ele significa “o restabelecimento do vínculo sagrado com o universo”.

A imortalidade engendrada pela inteligência artificial transita entre a segunda e a terceira categorias expostas no livro. Nela, o morto vira uma obra viva, quase um ser. Com fotos, filmes e textos de alguém, o defunto reaparece como que por mágica: anda, fala, comenta até o que não viu, o presente.

Associada ao Google, a Universidade de São Paulo inaugurou na terça-feira (2) a Cátedra Inteligência Artificial Responsável. Seu coordenador científico é o sociólogo Glauco Arbix. Ele acabara de publicar no Jornal da USP uma coluna sobre o assunto. Escreveu:

“Empresas como Super Brain, ProjectDecember e Deep Nostalgia conseguem reviver digitalmente entes queridos apenas com um punhado de fotos, e pouco mais de 30 segundos de dados audiovisuais. E as recriações não deixam de ser assustadoramente convincentes”.

Arbix disse que chatbots de clonagem inventam imagens de alguém falecido a partir de suas falas e gestos, definidos por algoritmos. E pergunta: “Qual programador, plataforma ou empresa pode garantir que a recriação algorítmica corresponde à vontade de quem já morreu?”.

A fantasmagoria digital produziu o anúncio de um carro estrelado por Elis Regina. Ele foi feito com autorização (e remuneração) da sua família. Mas e a cantora, toparia ser garota-propaganda? Nos Estados Unidos, Malcon X e Luther King Jr avalizariam o vídeo em que esgrimem argumentos um contra o outro?

Na Bélgica, segundo o Le Monde, Michèle, de 61 anos, contou no Facebook que seu filho Tommy morrera num acidente quando a mulher, Laura, estava grávida de Jayden, seu neto, hoje com 10 anos. Ela postou fotos dos três e perguntou se alguém poderia juntá-los.

Logo apareceu um vídeo de Tommy, Laura e Jayden sorridentes, se abraçando. Dizer que o filmete é crível não faz jus à sua perfeição. Como há milhares de grupos na internet que retocam gente morta, começou imediatamente uma polêmica: o vídeo era macabro, de mau gosto, tumultuava as emoções do menino Jayden por misturar vivos e mortos?

Jayden achou o vídeo simultaneamente “fofo” e “esquisito”. Disse à avó que os criadores da IA deveriam ter criado barreiras para impedir a manipulação de imagens. Já Michèle falou ao Le Monde que aprendeu uma lição e ficará longe inteligência artificial.

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