
Foto e poesia de Marcos Barrero
Existe a esquina da São João com a Ipiranga.
Ali alguma coisa acontece.
Outras coisas também.
O poeta não disse que num canto havia o apertado balcão do Jeca,
abrigo de gays com uma xícara de café na mão.
Não citou o Brahma e o Parreirinha com suas rãs na vitrine.
Não se sabe se um dia viu Johnny Alf, o exilado da bossa nova, no escuro fliperama entre garotos periféricos.
Não comprou revistas importadas, jornais de outros lugares,
cigarros Gauloises, fumo pra cachimbo e até canivete na Banca do Gaúcho.
Existe a esquina da São Luís com a Ipiranga.
Ali também muitas coisas acontecem.
Há dois prédios separados pelo caminho
da Galeria Metrópole e rua do Almanara.
No edifício mais alto viveram o próprio poeta e outros baianos.
Moram Supla, Dinho Ouro Preto, Bárbara Paz.
Foi abrigo dos defuntos Arthur Moreira Lima e Hector Babenco.
No prédio menor, Di Cavalcanti contemplou a Praça da República do alto da cobertura.
Deixou o imóvel para Marcelino de Carvalho –
repórter na Primeira Guerra e depois autor de livros de boas maneiras.
E a casa de ontem, hoje virou garfo, faca e mesa do chef Olivier Anquier.
Não havia Rita Lee, que morava na Pompeia.
A poesia concreta morreu.
O concreto passa bem.
Mautner, o deus da chuva agora ancião, vive.
Zé Agripino morreu louco.
E túmulo do samba foi uma piada entre Booker Pitman e Vinícius de Moraes.
Viva São Luís.
Viva São João.
Às margens
da Avenida Ipiranga.
E não se sabe se o poeta soube
que Sampa não colou na boca paulistana.
São Paulo é São Paulo mesmo.