de Carlos Castelo
Naquela tarde de autógrafos, o escritor se sentia um
ganhador do Jabuti: cercado de elogios, a livraria lotada de gente amiga.
Assinava seu lançamento com desenvoltura.
Para Ana, com afeto.
Para Cláudio, com admiração.
Para Jéssica, um grande abraço.
Mas, como todo bom dispositivo humano, ele teve uma falha técnica.
Na fila, a uns cinco metros, uma mulher acenou. Sorridente, afetuosa, com aquele olhar de “Eu vim!”. O problema: ele não fazia a menor ideia de quem seria aquela pessoa.
Seu cérebro, que até então estava em modo automático, entrou em pane silenciosa. Acenou de volta, devolvendo a gentileza. Os neurônios, pobrezinhos, reviravam e reviravam arquivos mentais:
“Será prima?”
“Colega de escola?”
“Uma ex? Tomara que não seja uma ex.”
“Célia? Não… Neusa? E se for Neusa e eu escrever Célia?”
Enquanto isso, a mulher avançava. Faltavam três pessoas. O suor escorria sob a gola da camisa do autor. Ele tentou um truque: mexeu a cabeça como se tivesse lembrado de algo. Ela notou e sorriu mais largo, agora com um leve inclinar de cabeça que dizia: “Ele me reconheceu. Que fofo!”
Duas pessoas.
Ele cogitou escrever apenas “Com carinho”, mas e se ela se ofendesse? O carinho genérico é a declaração covarde dos desmemoriados.
Uma pessoa.
O desespero bateu: talvez usar um elogio como disfarce. “Para a minha musa de sempre.” Hmm, arriscado demais… Podia soar assédio, e ele não queria ser processado pela musa de alguém.
Chegou a vez dela. Aproximou-se.
— Oiêêê! — disse, empolgada.
— Mas olha só quem tá aqui! — ele respondeu, gesticulando muito, como se o nome da criatura estivesse nos gestos.
Levantou-se da cadeira, estendeu a mão. Ansioso, já pegou livro e a caneta, tentando decifrar pistas no olhar dela. Depois a abraçou longamente para ganhar tempo.
Ao sair do cumprimento excessivo, ela disse:
— Trouxe aqui, ó: a caneta. Cor preta. Avisaram que a sua está falhando, né?
Ele congelou.
— A… caneta?
— É. Me mandaram lá do balcão. Falaram pra eu entregar aqui para o senhor. Posso levar a outra?
Ele, lentamente, olhou para a própria mão: a caneta que usava estava mesmo falhando. O nome Neusa mal aparecia na folha do livro.
A mulher recolheu a caneta defeituosa, sorriu com gentileza profissional e já se virava para ir embora.
— Espera! — ele disse, num último fio de dignidade. — Como é mesmo o seu nome?
Ela virou o rosto e respondeu, já andando apressada:
— Ah, tranquilo, eu sou só do caixa.
E sumiu entre as prateleiras da livraria.
O escritor, agora munido de caneta nova, olhou para a próxima pessoa da fila e disse:
— Desculpa a demora, eu estava lidando com uma pessoa muito querida. Queridíssima!
E a fila andou mais um pouco.
(Publicado no Estadão)