
por Mário Montanha Teixeira Filho
Era 5 de novembro de 1978, na antiga Baixada e sua arquibancada de tijolos à vista, que não abrigava mais do que dez mil pessoas bem espremidas. Eu estava lá, a testemunhar um milagre de santo. O Clube Atlético Paranaense, dono do estádio, recebia o Colorado, clube que desapareceu alguns anos depois para formar o Paraná, que ainda vive. No campo, um massacre. Os visitantes ganhavam de quatro a zero até os trinta minutos do segundo tempo. A partir dali, deu-se o improvável: pelos pés (e pela cabeça) de Ziquita, o jogo terminou empatado em 4×4, com todos os gols rubro-negros assinalados por ele.
Não tenho como descrever o que aconteceu naquele dia, mas posso dizer que tenho em mãos a resposta definitiva. Alguns anos atrás, ao revirar antigos papéis, dei com a prova do fato, chancelada por ninguém mais ninguém menos do que Nelson Rodrigues. Sim, o escritor maldito foi um dos responsáveis por eternizar o extraordinário, ainda que o seu notório desprezo pelos “idiotas da objetividade” não seja garantia uma análise isenta. E daí? Reafirmo que eu estive lá de verdade (se contabilizarmos todos os atleticanos que fazem esse mesmo juramento, chegaremos a um total de público superior à capacidade do antigo Maracanã), eu e o Sobrenatural de Almeida.
Quanto ao Nelson Rodrigues, a sua crônica, publicada no jornal O Globo no dia seguinte, uma segunda-feira, fala por si. Escreveu o mestre:
“1 – Amigos, vamos falar de Ziquita, o atacante do Atlético Paranaense que, num único jogo, fez quatro gols. Mas, até aí, a coisa não é tão notável. Fica notável quando se sabe que o adversário, o Colorado, estava vencendo de quatro a zero. E mais: – o Atlético já estava com dez elementos.”
“2 – Ora, que eu saiba, nada houve parecido no futebol. Um time que, com dez elementos, perdendo de quatro a zero e ainda se dá ao luxo de empatar de 4×4!. E, então, todo o Paraná foi testemunha auditiva e ocular de um milagre. Os idiotas da objetividade dizem, atirando patadas em todas as direções: – Não há milagres. Pois há. O que houve, no Paraná, entre o Colorado e o Atlético, foi um cínico e deslavado milagre. E como se fosse o Fla-Flu, sem a virada do Atlético.”
“3 – Lembro-me de um dia, anos atrás, em que um colega, ateu furioso, perguntou: – Tem sobrenatural? Respondi: – Não há clássico, nem pelada, sem um mínimo de sobrenatural. E, com pouco mais, cheguei ao Sobrenatural de Almeida.”
“4 – Mas vamos falar de Ziquita. Ele estava num jogo definido. Além de estar definido, ainda estava o time com dez homens. Foi aí, vejam vocês, que o técnico do Atlético disse a um repórter que via o jogo a seu lado: – Vamos empatar essa partida. O outro achou das duas uma: – ou o homem estava louco ou fazendo piada.”
“5 – Nem uma coisa nem outra. Simplesmente, estava anunciando o que lhe parecia a imaculada verdade. Foi aí que o atacante Ziquita fez o primeiro gol. Mas um gol, e apenas um gol, nada tem a ver com o Sobrenatural de Almeida. O Colorado ganharia de 4×1 e o Atlético continuaria goleado da mesma maneira.”
“6 – Em seguida, porém, o atacante fez o segundo gol. E, então, começou a loucura. Saiu o terceiro gol, e feito pelo mesmo Ziquita. Vocês perceberam? O Ziquita, nessa altura dos acontecimentos, ventava fogo por todas as narinas. O 4×3 já era coisa de colossal!”
“7 – Mas o incrível foi o Ziquita fazer os quatro gols em 15 minutos. Os idiotas da objetividade vão querer banalizar o prodígio. Mas o fato é o seguinte: – não há explicação possível fora do Sobrenatural de Almeida.”
Fecham-se as aspas. Ziquita e seu feito se tornaram eternos. E não há mais nada a dizer diante dessa verdade absoluta.
Show. Show.
Show. Show.
Show. Show.
Show. Show.
8 gols.
Ei estava lá….como descreveu o texto….em pensamento, mas estava lá….||Sou filha do Almir e neta do senhor |Alberto Gottardi…para o meu pai foi o maior jogo do Furacâo….e eu estava lá…em pensamento…até hoje…
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