21:42O paradoxo dos meus versos

por Mário Montanha Teixeira Filho

No ano passado, resolvi organizar um livro de poemas. Livro modesto, edição do autor, para dividir com amigos um pouco das coisas que escrevo e um pouco do custo da publicação. Prefiro assim, sem pompas e sem os aborrecimentos provocados por certas editoras contemporâneas, que se dispõem a publicar tudo o que nós, escritores, lhes apresentamos, movidas exclusivamente por interesses comerciais. Talvez eu esteja errado, seja rigoroso demais ao generalizar, mas a falta de avaliação crítica, confundida com “democratização” do mercado editorial, ou anunciada como contraponto ao desprezo dos grandes grupos que dominam o setor, me incomoda. Fico, então, com a minha pequenez, satisfeito por deixar um legado a quem se interesse, se houver alguém que se interesse. O pior que pode acontecer, na hipótese provável de uma indiferença coletiva, será o repouso longo e involuntário dos meus livros numa prateleira qualquer, que o tempo haverá de consumir. Que seja.   

A ideia do livro, eu dizia, surgiu no ano passado. Nesse período, revirei meus arquivos em busca de alguns escritos guardados na memória, papéis amarrotados, esboços de crônicas, contos e romances que nunca terminaram, depois transformados em versos. Finalmente, classifiquei o material em dez partes, cada uma dedicada a um tema específico: o amor, a política, o ato de existir, o cotidiano, a solidão e assim por diante. Tudo ficou pronto em janeiro ou fevereiro, não me lembro bem. Ou nem tanto. 

O original está lá, preso à tela do computador, e eu o visito de vez em quando, para acertar pequenos detalhes. Como num delírio permanente e shakespeariano, o meu olhar de poeta, “do céu para a terra, da terra para o céu”, continua a movimentar o conteúdo da obra: desloca os poemas de lugar, acrescenta pontos e vírgulas, corta versos e escreve outros, sem o peso das armas e da opressão, e se recusa a ingressar nas novas etapas que antecedem o final. Por que estou travado? – fico a me perguntar.

Não tenho a resposta, mas desconfio. Entre as intermináveis revisões que fiz, em todas elas parei num poema específico, que mistura política e cotidiano, passado e presente, e que é um dos mais antigos da coletânea – acho que tem quase quarenta anos de existência. Dois versos largados ali me chamam a atenção. Eles falam sobre as imposições do mundo moderno, com suas marcas publicitárias e seu consumismo desenfreado, e sobre conceitos plantados na minha cabeça, que um dia foi jovem, na tentativa do “sistema” de me enquadrar ideologicamente. O ritmo desses dois versos – míseras e pequenas linhas que me atormentam – parece correto, mas sinto que lhes falta coerência lógica. Para resolver o impasse, mudo as palavras, mas com isso perco a musicalidade do conjunto. Mexo, remexo, passo adiante e retorno ao mesmo ponto. Quando observo o resultado, encontro o poema tal como estava no início.  

Assim, afetado pelo paradoxo dos meus versos, pelo conflito entre racionalidade e ritmo poético, adio o nascimento do livro. Até quando, não sei. Também não sei se devo insistir em modificar as linhas inquietantes (o “quadradismo dos meus versos”, ora pois), se é melhor eliminá-las sem dó nem piedade, se sacrifico o poema inteiro ou se desisto de tudo, em respeito à vocação da minha obra literária: o anonimato.

Fico com o não saber, eis o que sei, e a minha ignorância solitária seguirá enquanto houver emoção, ainda que silenciosa, sem que o mundo se importe – os versos, afinal, me pertencem.  

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2 thoughts on “O paradoxo dos meus versos

  1. Célio Heitor Guimarães

    Siga em frente, meu prezadíssimo Da Montanha. Com toda a emoção deste mundo.

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