6:58Devemos agradecer ao micro-ondas, ainda que o ChatGPT seja eloquente

por Ricardo Araújo Pereira, na FSP

Antigamente, o elogio era: você é uma máquina. Agora devemos buscar humanidade com o uso delas

Um amigo confessa que, no final das suas interações com o ChatGPT, ele o agradece. Eu pergunto se também agradece ao micro-ondas depois de ele aquecer o arroz. Diz que não, porque o micro-ondas não fala com ele. Ora, não é verdade.

O micro-ondas também fala, à sua maneira. Diz quanto tempo falta para o fim do processo e avisa quando acabou.

O fato de não se expressar com a mesma desenvoltura que o ChatGPT não é desculpa para não o agradecer. Seria um critério tremendamente injusto: a esta máquina eu não agradeço, dado que não é muito eloquente.

Mas, ao que parece, o meu amigo não é o único que perde de vista que está interagindo com uma máquina.

Tenho percebido que as máquinas estão cada vez mais parecidas com os seres humanos, e os seres humanos devem estar cada vez mais parecidos com as máquinas.

Nota-se pela quantidade de empresas que me sugerem que eu seja mais humano. Não sei se têm reparado.

Astro Teller, o executivo que criou aqueles óculos do Google que são na verdade um computador, diz que o aparelho nos torna mais humanos.

Olhamos para o mundo através de uma máquina e ficamos mais humanos. Infelizmente, não disse quanto.

Gostaria de saber, em porcentagem. Deseja ser 35% mais humano? Compre o nosso produto —que, curiosamente, está agora 35% mais barato do que estava antes.

Alguma coisa aconteceu. Antigamente, o elogio era: você é uma máquina. Agora, a ambição é ficarmos mais humanos —com a ajuda de máquinas.

As máquinas, ao que tudo indica, sabem o que é ser humano, e nos oferecem um suplemento de humanidade.

Parece que eu já sou bastante humano, mas ainda posso ser mais. Tudo que é necessário é pedir conselhos a uma máquina. Foi o que fiz.

Resolvi me informar sobre os óculos do Google e verifiquei que tinham sido descontinuados em 2023, devido a terem fracassado. A Meta tem agora uns.

No mês passado, Mark Zuckerberg os apresentou ao público. Durante a demonstração, tentou várias vezes usá-los para contatar outro executivo da Meta. Falhou sempre.

Tenho de admitir que tudo isto me pareceu bastante humano.

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