11:27Quando Borges encontra Dante

O poeta Estácio com Dante e Virgílio (Canto XXI do Purgatório)

por Sandro Guidalli

No final dos anos 40, a imprensa argentina publicou alguns ensaios do Jorge Luis Borges sobre a Divina Comédia. Nove  deles foram reunidos em livro, em 1982. Não são leitura para os que desconhecem a Comédia. Os textos exigem ao menos uma boa base de compreensão da grande obra do Alighieri. Isso não significa, porém, que não devem ser lidos pelos ignorantes do texto, ainda que isso pareça paradoxal. Pelo contrário.
Para lembrar, a Comédia, escrita nos inícios dos anos de 1300, é uma concepção da vida espiritual após a morte. Ao morrer, a alma do homem tomará o rumo ditado pelo seu arbítrio em vida. O Inferno para os viciosos, o Purgatório para os que procuram passar do vício à virtude e o Paraíso onde habitam as almas perfeitas.
A imagem das três esferas dantescas nos é dada pelo próprio fiorentino. Ele irá visitá-las em carne e osso com a ajuda de três sombras: a do grande poeta latino Virgílio, a de Bernardo de Claraval e a de Beatriz Portinari, a mulher que o poeta amou, morta prematuramente aos 24 anos.
Virgílio, que habita o limbo do Inferno com todos aqueles que foram bons mas não chegaram a conhecer a Fé em Cristo, simboliza a Razão que leva a esta Fé. Ele conduzirá Dante pelo Inferno e pelo Purgatório pois os altos céus estão vedados a sua sombra. Nestes está justamente Beatriz que, ao ver a condição caída em pecado do Alighieri, pede ao Poeta latino que o ajude a passar do vício condenatório à Fé que salva, representada aqui pela ex-amada de Florença. Ela quer que Dante veja a condição dos homens após a morte e que isto o leve à reflexão e ao seu encontro com ela para a Eternidade.
O poema tem momentos de riso, de angústia, de melancolia, de amor e de tristeza. Todas as paixões humanas estão nele, expressadas em tercetos maravilhosamente escritos no dialeto toscano, língua mais acessível aos leitores de língua portuguesa que a outras similares, aliás.
Dentre tantos aspectos do poema, Borges enfatiza um deles que, segundo penso, é dos mais apaixonantes e instigadores da sua leitura. Daí prestar atenção quando Borges fala. Depois de citar o argentino farei um comentário próprio.
Avalia Borges que, a Dante, não basta dizer que, abraçados um homem e uma serpente, o homem se transforma em serpente e a serpente em homem. O Poeta compara essa fusão com o fogo que devora um papel, precedido por aquele contorno avermelhado em que o branco desaparece sem que, todavia, tenha o negro da cinza já sido definido.
A Dante, prossegue Borges, não basta dizer que, na escuridão do sétimo círculo do Inferno,  os condenados semicerram os olhos para o admirar. Ele os compara ao olhar dos velhos alfaiates quando percorrem o fundo das agulhas sob uma lua incerta.
Também não basta dizer que no fundo do Universo a água congelou. Dante acrescenta que isso parece vidro. Não água. E aqui o Poeta parece glosar o Apocalipse da Bíblia.

Haveria, obviamente, centenas desses exemplos a discorrer. Para encerrar, direi aqui uma de minhas passagens preferidas:
No Canto XXI do Purgatório, Dante está desejoso de saber por que  há terremotos em suas cornijas e compara essa curiosidade à sede que a mulher samaritana apenas saciou em Jesus naquele encontro junto ao poço de Jacó.
Neste momento, para sorte do caminhante, surge o poeta Estácio (Públio Plínio Estácio, autor da história de Tebas, morto no ano 96 d.C). Este informa que há tremores ali sempre que uma alma ascende ao Paraíso, para glória e alegria de Deus. No contexto do trecho, porém, de grande beleza é a maneira com que Dante conta a aproximação de Estácio e sua reação quando vê diante de si a sombra de Virgílio, o maior dos poetas.
Sem ainda saber que tem seu Mestre e inspirador a sua frente, Estácio diz que todo o vigor e talento poético dele vêm da Eneida e que ele aceitaria ficar mais um ano banido do Paraíso apenas para poder encontrar o autor do grande poema sobre a fundação de Roma.
“De l’Eneïda dico, la qual mamma fummi, e fummi nutrice, poetando: sanz’essa non fermai peso di dramma”, declara Estácio. Numa paráfrase poderíamos dizer que a Eneida foi como uma mãe que nutre o filho e sem a qual este, Estácio, não valeria nada.
Quando Virgilio ouve seu interlocutor imediatamente olha para Dante com um sutil aviso no rosto para que ele se cale (aqui tudo  é quase velado, dito sem ser dito. Dante é o mestre das alusões). O fiorentino, entretanto, não consegue calar e revela a Estácio que o próprio Virgilio o ouve neste instante. É este que está entre eles.  Neste momento, Estácio se prepara para abraçar os pés do Mestre quando Virgilio o impede, dizendo: “Confrade, o não faças, que és sombra e sombra vês”.
Ao que Estácio responde, erguendo-se: “Agora a quantidade já vês do amor que por ti tenho ardente, quando eu esqueço a nossa vanidade, vendo nas sombras cousa consistente”.

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