8:24LEROS

de Carlos Castelo

§ Se existe um verdadeiro motor para o colapso da civilização moderna, não é a ganância, a corrupção ou mesmo a internet. É a incapacidade abissal das pessoas de interpretar um texto. Mesmo aqueles tão claros quanto uma placa de “puxe” numa porta de vidro.
Vivemos numa época em que um cartaz dizendo “Favor não alimentar os pombos” gera debates acalorados sobre liberdade de expressão, direitos dos pombos e teorias da conspiração envolvendo o tráfico aviário. Cada frase é agora uma oportunidade para a plateia demonstrar não apenas sua falta de compreensão, mas seu orgulho dessa deficiência. Não entender virou sinal de autenticidade; interpretar bem, por outro lado, é elitismo literário da pior espécie.
Basta um post escrito “Hoje está calor” para a turba se dividir em três facções: os que acusam o autor de negacionismo climático, os que denunciam apropriação cultural do sol e os que, sem ler além do título, já convocam um protesto para uma praça com cartazes exigindo a prisão imediata do culpado.
Quando foi que compreender um parágrafo virou um luxo reservado aos sábios do Olimpo? Antigamente, até um asno conseguia, com algum esforço, perceber que uma pergunta retórica não era um ataque pessoal.
E pouco importa o que o autor escreveu; importa o que você, iluminada criatura, sentiu quando leu. Se uma receita de bolo lhe trouxe lembranças traumáticas da infância, a culpa é da receita, do autor, da editora, da farinha de trigo e, claro, do sistema opressor.
No fim, sobrarão só os avisos — e nem assim entenderão.
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