de Carlos Castelo
§ Se há algo que o Brasil domina com maestria é a arte do eufemismo. Um país que chama ditadura de “regime militar” e inflação galopante de “movimentação econômica acentuada” não poderia deixar de ser assim também quando o assunto é um ataque institucional em larga escala. Assim, sobre o 8 de janeiro, o veredito vai ficando claro: tivemos apenas um tour guiado em Brasília, com toques de vandalismo performático.
Então, peguemos, por exemplo, o Congresso Nacional. As vidraças foram quebradas, móveis “desconstruídos”, o vitral “Araguaia”, de Marianne Peretti, virou um mosaico ainda mais abstrato .
Supremo Tribunal Federal. O plenário ficou totalmente destruído. O Salão Nobre perdeu seu acervo, e um vaso da dinastia Shang, datado de 1500 a.C., foi pulverizado. A escultura “A Bailarina”, de Victor Brecheret, teve sua dança interrompida.
O Palácio do Planalto foi vandalizado. O ponto alto foi a pintura “As Mulatas”, de Di Cavalcanti, avaliada em oito milhões de reais, rasgada a faca. Um raríssimo relógio do século XVIII, feito por Balthazar Martinot, foi detonado. Armas e munições foram roubadas do Gabinete de Segurança Institucional. Fora os episódios sórdidos de excreção.
Ao final, quando as luzes se apagaram e os cacos baixaram, ficou a pergunta pairando no ar empoeirado: se isso não foi um golpe, então o que seria?
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Tem história
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