por Carlos Castelo
Decidi, com a convicção que apenas os anos concedem, deixar o bigode crescer. Não foi um ato impulsivo, como pintar os cabelos de verde ou comprar uma Harley-Davidson na crise da meia-idade. Não. Foi um gesto calculado, um manifesto contra a previsibilidade da minha própria cara.
A última vez que permiti a existência de tal ornamento facial estava na casa dos 20 anos. Naquela época, o bigode era um adereço arriscado, onde se podia cair na armadilha de parecer um entusiasta de músicas sertanejas ou, pior, um vendedor de enciclopédias. Mas agora, décadas depois, o contexto é outro. Após anos convivendo com o mesmo reflexo no espelho — uma paisagem facial inalterada e previsível — resolvi que era hora de desafiar o status quo.
A reação de meus colegas e amigos variou entre o espanto e a inquietação. Alguns me olharam como se eu tivesse anunciado uma repentina vocação para o crime organizado. Outros hesitaram antes de elogiar, temendo que fosse uma daquelas decisões passageiras que as pessoas tomam antes de uma reviravolta existencial, como começar a falar de si em terceira pessoa ou se mudar para um retiro espiritual na periferia de Macapá.
Um amigo, mais honesto, apertou os olhos e disse:
— Por quê?
A entonação dele foi a de quem descobre que um parente trocou um emprego estável por uma franquia de aluguel de VHS.
Pois bem, explico a todos de maneira objetiva: porque posso. Porque o bigode não é apenas um amontoado de pelos acima do lábio — é um marco civilizacional. De Nietzsche a Groucho Marx, de Salvador Dalí a Seu Madruga, os bigodes moldaram a história do pensamento e do entretenimento. Eles transmitem maturidade, sabedoria e um toque de rebeldia.
Mas, acima de tudo, deixei o bigode crescer para reafirmar um direito fundamental do ser humano: o direito de mudar, de reinventar-se. E, admito, para testar quantas pessoas ficariam desconfortáveis ao ver minha nova persona, meio filósofo estoico, meio investigador da Polícia Civil.
Agora, ao observar o mundo através das novas lentes da minha pilosidade facial, percebo que as reações continuarão. O bigode não é apenas uma questão estética. É uma declaração de independência.
E, para aqueles que perguntam se eu irei raspá-lo, a resposta é simples: o bigode permanecerá enquanto houver dúvidas, olhares desconfiados e gente perguntando se estou passando por alguma crise. Ponto.
Pelo embigodamento amplo, geral e irrestrito! Masculino! Feminino! (Por que não?).
(Publicado no Estadão)