6:45Minha companheira de vida

por Célio Heitor Guimarães

Cleonice, minha mulher, e eu tínhamos um acordo: quando chegasse o momento de irmos embora desta vida, iríamos juntos. Para continuamos juntos a jornada que já durava 69 anos (63 de casados e seis de namoro e noivado). Sabíamos que nenhum de nós suportaria a falta do outro. Na última terça-feira, o acordo foi rompido. Cleonice, certamente não por vontade própria, deixou-me só. Num repente inesperado. As doenças que tinha estavam sob controle e seu coração – aquele que ela havia me dado –, nunca incomodara, sob cuidados de excelente cardiologista. Pois foi esse coração que sofreu um ataque no início do dia 28/01. Irremediável.

A dor que se sente só é capaz de avaliar quem já a sentiu. Atordoa, dilacera, tira-nos de prumo e de rumo. Não tem forma nem cor. Só machuca e entristece. Traz-nos à mente aquilo que foi feito e o que não foi. Aquilo que foi dito, o que não foi e aquilo que não deveria ter sido. Alegrias e arrependimentos. Uma imensa sensação de nunca mais.

Esse sofrimento só é atenuado quando se tem uma família unida e estruturada e o apoio de amigos sinceros. A vida continua. E o que fica é a saudade, definida por Rubem Alves como “a ausência de uma presença”. E essa ausência dói demais.

Minha caminhada com Cleonice começou quando ela tinha 14 anos e eu 15; casamo-nos, no início da década de 60, ela com 20 anos, eu com 21. Juntos e um pouco assustados, enfrentamos a imaturidade e as dificuldades de uma nova vida, cada um com o seu temperamento. Eu, um virginiano perfeccionista, crítico e exigente; ela, pisciana, sensível, romântica, sonhadora. Virgem e Peixes situam-se em lados opostos do zodíaco. Uma vida em conjunto tem tudo para dar errado. Quando dá certo, porém, é para sempre. Graças à benevolência, a paciência, a inteligência e… a coragem do pisciano. Não há nada que supere o amor verdadeiro, a compreensão e o respeito mútuo de um casal, por mais divergente que seja. Houve desentendimentos? Houve. Mas nada que não pudesse ser resolvido amigavelmente.

Cleonice cumpriu a missão dela. Com um curso que não existe mais – o de normalista –, alfabetizou e educou milhares de crianças, com dedicação, paciência e afeto, nos então Grupos Escolares de Vila Lindóia, Barão do Rio Branco e Professor Cleto; como mãe, foi a melhor do mundo, amorosa, compreensiva, dedicada; como avó e bisavó, só emanava afeto e ternura; como esposa, foi o meu ponto de luz. Tudo o que eu sou ou fui devo a ela, à sua presença constante, aos seus conselhos, ao seu incentivo e à sua amizade. Aparava os meus excessos e aplaudia os meus acertos, com o mesmo carinho e a mesma doçura.

Dizem que o remédio para saudade é o esquecimento. Rubem Alves indignava-se e contava a história de “um homem que amava apaixonadamente uma mulher que a morte levou. Desesperado, apelou para os deuses, pedindo que usassem seu poder para lhe devolver a mulher que tanto amava. Compadecidos, eles lhe disseram que devolver a sua amada não podiam. Nem eles tinham poder sobre a morte. Mas poderiam curar seu sofrimento, fazendo-o esquecer-se dela. Ao que ele respondeu: ‘Tudo, menos isso. Pois é o meu sofrimento o único poder que a mantém viva, ao meu lado’ ”. Faço minhas as palavras dele.

Aliás, logo será a minha vez. Como Cleonice não poderá vir reencontrar-me, irei eu fazer-lhe companhia. Para juntos seguirmos em frente.

Quando penso ou digo “essas bobagens”, recebo uma mensagem deixada sobre a minha mesa de trabalho por minha neta: “Vô, nós todos amamos muito você. Mantenha-se forte, eu te amo muito e isso nunca vai mudar. Um beijo da Fernanda”.

Vou tentar, Ferzinha querida. Vou tentar.

P.S. – Desculpe-me o leitor por eu ter usado este espaço com um assunto tão pessoal. 

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11 thoughts on “Minha companheira de vida

  1. Edson

    Belíssima , comovente e merecida homenagem meu amigo .
    Associo-me a mensagem da tua neta..
    Muita força .
    Saiba que estamos com você.

  2. swissblue

    Caro CHG, Que a paz chegue, aos poucos, ao seu coração, e que o amor e as boas lembranças de sua esposa permaneçam como luz em sua caminhada. Estamos todos ao seu lado.

  3. Raul Urban

    Ler algo tão iluminado e vindo de um ser que fez da Vida um apendizado em companhia de alguém que compartilhou tantos instantes…. ah, que privilégio!! As bonanças se fazem diante dos empecilhos, dos supostos problemas, das inquietudes, mas se resolvem ante o olhar de quem é companhia e sabe, muio bem, compartilhar, com profundidade e amor, esse momeno.
    Juntos, crescemos, vivemos, olhamos o mundo não só com o olha adulto decorrente dos decênios de convívio mútuo. Mas vivemos o mundo com olhos tomados, sempre, de poesia, de bem-querência, de um sentimento – felizmente – indivisível que, no bom sentido, corrói nossa Alma e nos ilumina.
    Célio, meu caro, aqui o relato de quem ainda semana passada completou 51 anos de uma experiência a dois que – e há de ser – se prolongará por mais um longo tempo. Foram só 8 meses de namoro, em 1973, seguidos de 51 anos de convívio mútuo e que dura até hoje, a partir de 1974.Mas, mesmo sabedores de que mais adiante também seguiremos à Linha do Horizonte, mais bonito e mais importante é sabermos que somos, todos, iluminados.
    Força, meu amigo, porque tuas palavras sábias, mostrando o quanto tua companhia agora perdida foi vital, hão de te energizar, para que as ações ainda advindas tenham o carimbo o Acediar.
    Forte abrtaço!

  4. José maria correia

    Não encontro palavras após ler tão delicada mensagem.
    É como um relicário, para se guardar junto ao coração.
    Os casados antigos e há mais de meio século como nós, um dia serão separados pelo inelutável, como você foi.
    Dilacerado .
    Por quanto tempo?
    Só Deus sabe .
    Então querido mestre Célio, na vida há essa fase que sabemos existir mas nunca nos resignamos .
    Resta viver como disse Rubem Alves, um tanto para nós e a maior parte para os filhos , netos e as lembranças e as doces recordações.
    Com muito carinho – José Maria

  5. Mário Montanha Teixeira Filho

    Emocionante, delicado e verdadeiro, Célio. Um grande abraço em muita força neste momento tão difícil.

  6. antonio

    Gostaria, também, de contar a minha história. Encontrei o amor da minha vida aos 70 anos e ela com 66. Ambos vindos de casamentos desfeitos, cada com 3 filhos, em com dois e ela seis netos. Vivemos 5 anos maravilhosos e ela acabou falecendo de repente, nos meus braços. Isso faz um ano e 5 meses. A tristeza não passa. Muita saudade, mas muito agradecido pelo tempo que me foi permitido conviver com ela. Hoje tenho 6 filhos e 8 netos. Coisa maravilhosa. Sempre repito que o amor não tem idade. Encontrei o meu amor aos 70 anos. Célio, te conheço apenas pelos teus textos. Fique apenas com a saudade.

  7. Sérgio de Jesus Vieira

    Prezado Dr. Célio (permita-me tratá-lo assim). Sou um dos seus inúmeros leitores e também o conheço pelos seus textos e pelo seu Livro “Com todo o respeito Excelências!”.
    Sinto muito pelo ocorrido e peço que Deus na sua infinita misericórdia acolha com bondade a alma da sua Amada Cleonice e conforte o seu coração e de seus familiares.
    Mesmo não o conhecendo pessoalmente quero manifestar a minha admiração pelo excelente escritor que o senhor é, pois mesmo em um momento de profunda dor encontrou força e inspiração para escrever um texto maravilhoso.
    Também sou lapeano “com e”, servidor público estadual aposentado e um modesto professor do ensino básico, técnico e tecnológico federal, encerrando a jornada e “conservand a fé” e encaminhando o processo de aposentadoria.
    Pelos seus ensinamentos e citações reli algumas obras que tinha do Grande Mestre Rubem Alves e adquiri outras.
    Agradeço pelos ensinamentos e rogo ao Poder Supremo que lhe ampare neste momento delicado.
    Abraço Fraterno do seu leitor.

  8. Célio+Heitor+Guimarães

    Obrigado a Edson, Swissblue, Antonio, Raul Urban, José Maria Correia, Mário Montanha Filho e Sérgio de Jesus Vieira pela força e pelo carinho. São manifestações assim que atenuam o sofrimento e nos embalam na caminhada. Para o Sérgio: a gente é lapeano com e porque em coisas sagradas não se mexe.

  9. Realmente

    Texto maravilhoso.
    Análises suaves e ternas.
    Fique em paz.
    Do seu leitor.

    PS – quando iniciei a leitura no dia da publicação, não a terminei por que sabia que iria emocionar-me.
    Hoje, 13/2, após ver seu texto de reencontro com o Editor Zé Beto, retornei e a li integralmente.
    Belíssimo.
    Manifestações puras como a de Antonio são fenomenais.

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