8:45Diários da Ditadura IV

por Arnaldo Correia

28 de janeiro de 1971

Eunice Paiva, mulher do ex-deputado federal Rubens Paiva, está presa sozinha numa cela do DOI-CODI desde 21 de janeiro. Após sete dias com a mesma roupa e sem tomar banho, ela é autorizada a usar o chuveiro do quartel e colocar roupas limpas.
Como está incomunicável desde que chegou, Eunice não sabe que, na noite de 22 de janeiro, os telejornais mostraram reportagem que seu marido teria sido libertado por “amigos guerrilheiros” durante uma transferência de prisão.
Ela também não sabe que, na manhã daquele dia, o corpo de Rubens, esquartejado, foi enterrado pelos militares numa praia particular da Marinha no Rio. Ele tinha apanhado até morrer no mesmo quartel do Exército que Eunice estava, na Tijuca. Mas ela nunca o encontrou ali nem tinha certeza que ele ocupava uma cela na mesma unidade até morrer.
Nas poucas vezes que era tirada da cela, Eunice era obrigada a usar um capuz. O mesmo acontecia com todos os presos e com sua filha Eliana, que foi presa junto com a mãe e liberada no dia seguinte.
A rotina de Eunice era olhar álbuns de fotos e dizer se reconhecia as pessoas, se as tinha visto em sua casa ou falado com elas. A família Paiva foi presa sob a suspeita que Rubens ajudava os movimentos de esquerda. Sua atividade seria repassar cartas que vinham de esquerdistas brasileiros exilados no Chile.
As prisões aconteceram sem ordem judicial ou qualquer outro documento. Eliana tinha 15 anos. O DOI-CODI era o principal centro de tortura da ditadura militar. Estima-se que mais de 250 pessoas desapareceram depois de passar por ali. Seus corpos nunca foram encontrados.
Eunice tinha esperança de sair e reencontrar a família, pois desconhecia qualquer atividade subversiva do marido. Depois de cassado e exilado por quase um ano em 1964, Rubens Paiva passou a atuar como engenheiro civil e enriqueceu, com diversos projetos bem-sucedidos.
Na prisão, Eunice não recebia qualquer informação da família. Diversas vezes, durante à noite, um militar iluminava a cela com uma lanterna e perguntava o nome da presa. Técnica para vencer os presos pelo cansaço. Em algum momento, Eunice notou que fotos suas e do marido foram adicionadas ao álbum de terroristas

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3 thoughts on “Diários da Ditadura IV

  1. Parreiras Rodrigues

    E bolsonaristas ignoram que o apoio ao Genocida é manifesta simpatia pelo retorno da Ditadura.

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