por Mário Montanha Teixeira Filho
Cheguei em casa. Passava pouco do meio-dia. No calendário, 12 de janeiro de 2005. Tudo em ordem, a não ser por uma circunstância que me perturbou: eu não tinha pai. Era um homem sem pai. Meu pai morto vinte quatro horas antes da minha aflição. Meu pai que havia tão pouco tempo falava comigo, seus olhos em mim. Azuis de um mar caribenho. Olhos serenos de contemplação.
Um pedaço da minha existência parecia perdido. E a tristeza, que era profunda, ganhou a companhia da lembrança. Eu me vi menino outra vez. Meu pai, herói da Segunda Guerra, e as suas muitas histórias. Grandes combates, odisseias na neve e chumbo cruzando os ares, há de se pensar. Mas não foi assim que a guerra se expressou nas palavras do meu pai. Por ele, eu conheci um mundo repleto de crônicas, o cotidiano de gente que levava para o estrangeiro as suas angústias, os seus sonhos, a sua juventude. Uma guerra feita por homens – carne, osso e paixão. E contada por quem enxergou no fundo das relações humanas um valor fundamental. Meu pai foi capaz de transformar guerra em poesia. Chorar pelos que não voltaram, acompanhar a trajetória de cada um.
Lembro-me da primeira vez que o vi se derramar em lágrimas, no aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. A fortaleza que sempre me protegeu estava frágil. Dava com os nomes de alguns ex-combatentes e se emocionava diante da dura realidade da morte. Eram seus companheiros que tombaram, irmãos da campanha da Itália. Assustei-me até compreender, quando a infância já estava longe, o significado daquele instante. No monumento aos pracinhas, o pranto era de um soldado que quebrou as regras da hierarquia militar para salvar uma vida. E que, entristecido, observou a interrupção de outras vidas. O pranto de quem pensou e realizou o simples: a vida acima dos regulamentos; a vida, criação divina, acima das invenções do homem; a vida para ser vivida; o homem para ser feliz.
O herói da guerra foi o meu herói de todos os dias. Meu pai. Não repartimos as mesmas convicções, não torcemos pelo mesmo time, não ouvimos as mesmas músicas, não lemos necessariamente os mesmos livros, não reverenciamos os mesmos mártires, não seguimos a mesma doutrina. Foi ele, porém, o meu professor definitivo. Deu-me exemplo de sinceridade, de respeito às pessoas que amou, de honestidade intelectual e paz de espírito. Poeta mais do que advogado, pensador mais do que político. Assim foi. Assim é.
Então, volto a refletir e me corrijo. Não sou um homem sem pai. Nunca serei. Meu pai é presença em cada gesto meu. Meu pai sempre estará comigo. Filho, carrego o seu nome. Não sei se me cabe, mas tenho orgulho.
Mário Montanha Teixeira, agora, quando retornar à minha casa, saberei que estás vivo.
Belíssimo texto, querido amigo Da Montanha. Você e seu saudoso pai caminharão sempre juntos, sobretudo pelas eventuais divergências.
Belíssima e tocante homenagem Mário.