6:28JOSÉ MARIA CORREIA

Pai, há 40 anos te escrevo.
Desde que nos despedimos pela última vez.
Lembro de nossas tardes de sol nos estádios lotados e no Jockey Clube.
Você fazia o laço de minha gravata de criança e me levava radiante pela mão .
Vibrava à cada vitória, cada páreo e cada gol do Athletico.
Se passaram esses anos todos .
E hoje já sou mais velho que vc em todas as suas fotos .
Ficaram essas lembranças doces e as ausências sentidas.
Mas do que mais sinto falta ao olhar minhas mãos enquanto escrevo.
Não é só do teu sorriso .
Ou dos teus silêncios profundos na poltrona da sala, que hoje são os meus, e levei setenta anos para compreender.
Mas da tua mão, a que me conduzia, firme e terna , e me dava toda a segurança do mundo.
A mesma mão que inútil e desesperadamente procurei por toda a vida .
E a dor de ver a chegada do carteiro no portão e saber que jamais haverá resposta para as cartas que nunca enviei .

 

Compartilhe

One thought on “JOSÉ MARIA CORREIA

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.