7:02Os influencers pré-históricos

por Carlos Castelo

A principal expressão artística dos homens pré-históricos era a pintura. A arte do Paleolítico Superior, por exemplo, tinha como objetivo imitar a natureza de forma precisa.

Um aspecto notável dessas pinturas era a representação do movimento. É comum encontrarmos nas pinturas animais em diferentes atividades – correndo, pulando, pastando ou interagindo com caçadores.

Para criar essa sensação de movimento, eram empregadas técnicas sofisticadas, como a inclusão de contornos para sugerir o movimento das partes do corpo do animal.

A arte rupestre era uma forma de expressão estética. O homem de Cro-Magnon apreciava a beleza das formas, a simetria e as cores vibrantes, evidenciado pelo fato de que pintavam e tatuavam seus corpos.

No entanto, suas peças de arte mais significativas provavelmente tinham finalidades que iam além da simples criação de beleza. Isso é sugerido pelo fato de que as pinturas mais requintadas eram encontradas em partes escuras e inacessíveis das cavernas, onde eram vistas sob a fraca luz das tochas ou lâmpadas rudimentares alimentadas por gordura animal.

Um dia, cerca de dez mil anos antes de Cristo, tudo mudou: veio a primeira forma de Instagram. Não era um aplicativo, até porque o celular ainda não tinha sido inventado.

Um chimpanzé estava passando pelas locações do filme “2001 – uma odisseia no espaço” quando viu o Monolito. Curioso, o tocou e obteve, na hora, informações wireless sobre como lançar a novidade no mercado da época.

O Instagram do Paleolítico, na verdade, era uma enorme rocha onde os primitivos exibiam miniaturas de suas pinturas para receber o “curtir” dos semelhantes.

A experiência começou bem. Em vez de golpear a família com porretes de madeira, os Cro-Magnon machos ficavam na pedra olhando os desenhos dos outros e esperando que a comunidade aprovasse os seus. Era comum também que comentassem com escárnio as ideias alheias. O fato, dizem certos comentadores, gerou milhares de mortes por espancamento e apedrejamento.

Independente do fato, a novidade se tornou mania. O problema foi que os nossos ancestrais passavam o dia inteiro no Instagram rupestre e não pintavam mais nada com qualidade ritual ou artística. Nunca mais se viu, por exemplo, mamutes de realidade aumentada pulando das rochas, como se fossem de verdade. Nem renas tão realísticas que pareciam feitas por uma impressora 3D.

A arte, graças ao microblog analógico, estava dissoluta e viciada. Qualquer zé-mané podia dizer que era artista plástico. E os brucutus só queriam ser influencers, obter mais e mais followers, e não demorou para uma guerra fratricida ser deflagrada.

Deu a lógica: não sobrou pedra sobre pedra.

(Publicado no O Dia)

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