7:02Atletiba na barbearia

por Sergio Brandão

Se a tradição do futebol da capital conquistou poucos adeptos pelo Estado, onde se enraizou, fez acontecer o Atletiba, o maior clássico do Paraná, valendo histórias inusitadas. Se o norte do Estado adotou o futebol paulista como seu e o sul adotou o futebol gaúcho, Curitiba e litoral viveram e ainda vivem o Atletiba com algumas histórias inacreditáveis.

A história de uma barbearia em Antonina, no Litoral do Paraná, é um destes espaços, que até o início dos anos 2000 produziu histórias que começaram lá pelos anos 70. Foi nela que um dia suas cadeiras de espera foram arquibancada de muitos atletibas que, se não foram quentes em campo por falta de futebol, seu João e Polaco, dois barbeiros da cidade, deram vida ao clássico regional dentro do que para eles era espaço de trabalho. Entrar na barbearia Atletiba, era aceitar além do serviço, ter jogo de cintura para muita conversa e zoação.

João (foto abaixo) coxa-branca e Polaco atleticano, barbeiros por profissão, davam lição de marketing, usando a rivalidade do clássico como espaço para um grande negócio.

Na pacata Antonina de poucos habitantes e clientes, o atletiba foi o atrativo da barbearia do João e do Polaco. Os dois viveram o clássico como poucos nestas histórias dos quase 100 de história. Juntaram atleticanos e coxas num mesmo espaço, para falar de futebol, mas sem briga, só com brincadeiras. Em qualquer dia da semana, nem que não houvesse cabelo para ser cortado, a clientela fervia na barbearia do João e do Polaco.

O espaço interno da barbearia, era dividido ao meio, com duas filas de espera, com duas cadeiras, para dois barbeiros, duas clientelas, com uma faixa que dividia o espaço, como se fosse uma linha divisória de um campo de futebol. De um lado o João com seu time de clientes coxas e do outro lado, do campo o Polaco com seus atleticanos. Nas paredes, cartazes, fotos, bandeiras e flâmulas compunham o cenário. Semana de clássico o salão fervia. No dia seguinte, na segunda-feira, só os vencedores apareciam para cortar cabelo.

Certa dia, perto da hora do almoço, o salão tinha mais atleticano que Coxa. João atendeu o seu último cliente e se ofereceu para ajudar o colega Polaco. Com pressa e sem muito tempo para esperar, o atleticano/cliente supera a rivalidade e aceita ser atendido pelo João. Era a primeira vez que um coxa atendia um atleticano com barba e cabelo para fazer.

O cliente em questão era um dos mais chatos, gostava de provocar a turma do João que parecia espumar de alegria quando percebe que o rival vencia o desconforto, se sentando finalmente na cadeira destinada até então só ao torcedor Coxa.

João segue com o atendimento do adversário sem deixar pistas do que preparava, vendendo a imagem do profissional e não do torcedor. Termina o serviço e sua mente coxa-branca colocava em ação o plano diabólico. Já na segunda etapa do trabalho, fazendo a barba do incomodado cliente/adversário que não escondia certo desconforto sendo atendido pelo barbeiro coxa.

Entre as brincadeiras e provocações durante o trabalho, João guardava para a metade do trabalho a sacanagem final. Quando alcança exatamente a metade do serviço, com a barba feita pela metade, anuncia que estava chegando a sua hora do almoço e que só terminaria o trabalho depois do almoço. Tirou o avental e se mandou pra casa. Foi a primeira e grande vingança com o mais chato do salão. Aos berros do atleticano, João saiu para o almoço deixando o atleticano na cadeira coxa, como quem corre para a comemoração de um gol num autêntico atletiba jogado em casa.

Durante anos, funcionando ao lado do Teatro de Antonina, o salão atletiba produziu outras tantas histórias como esta.

A barbearia não existe mais. João e Polaco se aposentaram. Antes de Polaco partir deste mundo, passaram a se encontrar pelo menos uma vez por mês, um cuidando do outro, fazendo barba e cabelo, um do outro, em atletibas bem mais amistosos, só com os dois artilheiros da barba e do cabelo, sem torcida nas arquibancadas.

João, o coxa-branca, no trabalho

 

 

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3 thoughts on “Atletiba na barbearia

  1. Fabiane de Cassia

    Parabéns história linda que vamos levar pra vida do sogro e do Seu Polaco… Uma observação Seu Polaco ainda está vivo morando com sua filha Nadia … Um mês atrás os se encontraram novamente relembrando suas histórias

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