6:44Literaturas vivas na janela

por Thea Tavares

O gato que salta na janela, o vento, que balança o lençol no varal e assovia nas frestas, o pé de jabuticaba, carregadinho de aromas, cores e de sabores, são pedaços de literatura viva, narrada pelo observador e sua tranquilidade. As páginas sequenciam cenas que ele enxerga e descreve a partir de seu ângulo e referências.

Os sons da música suave ou do motor e dos pneus no asfalto também são composições dissonantes e integradas ao plano da visão poética, encantada e cativa. Sob Sol, chuva ou tateando na noite nublada o brilho das estrelas que não se vê. Sabe-se apenas que elas estão lá no alto, piscando saudades. E quando essa certeza nos foge, de novo, o poeta cutuca a lembrança, formiga o coração e reaviva na mente de todos aquela luminosa presença.

Aprender a viver, extraindo aprendizados e o que a vida tem de melhor para oferecer, é um constante desafio de calibrar os sentidos e confiar nessa luz encoberta e nos fenômenos astronômicos que a gente não vislumbra com nitidez, mas que nutrem nossas abstrações com o recurso da imaginação e sensibilidade de um atento observador da natureza.

Ele viaja nas coisas que vê, tateia e sente. Mas migra para além das fronteiras da percepção quando transcende sobre a realidade visível ou invisível e descreve em minúcias outros planos e propósitos secretos. Descortina uma consciência mágica que conecta e dá sentido a cada pétala de flor, cada joaninha sobre a folha verde, gotícula suspensa no espaço emoldurado pela janela e no raio de sol que bronzeia o pelo escuro de um raro felino, apaixonado pelo calor.

As maravilhas que ele vê nem de longe são reveladas por sua majestosa dissertação. Por mais que tente, não há palavras e nem mímicas conhecidas e assimiladas por nosso limitado alcance que expressem com perfeição o encanto da vida e as riquezas na profundidade da alma. E, assim, nosso arauto não economiza criatividade para passar o máximo de informação que conseguir a fim de tocar os corações adormecidos dentro de nosso vocabulário e cabrestos.

Sem desistir, por muito insistir, descobre milhares de formas e variações de contar o que sente ao observar a folha, o pássaro, o varal, a estrela escondida e as cores do entardecer. Nas entrelinhas, discorre sobre as criações e tesouros imateriais que nos cercam, dispostos ao acesso. De novo, de novo e novamente mais.

A poesia está viva no cotidiano e é fabricada letra por letra a partir das diferentes dimensões habitadas e nos espaços preenchidos por todos os nossos corpos existenciais. De cada uma delas retemos a mensagem própria daquele tempo e entendimento, para descrever e expandir mais e ainda mais nossos limites e acomodações em infelizes sombras. É preciso extrair sopros, fragmentos e luminosidades sorrateiras de cada chance de felicidade que puder ser acessada. E o poeta veio existir para nos sacudir, acordar e derramar múltiplas cores de embelezamentos nessa jornada árdua para quem teimar em não escutá-lo do fundo do coração.

Que vivam todos os poetas, contistas e narradores de nossas estrelas! Vestidos em cores alegres e saltitando uma criança doce e inquieta, que jamais se deixa aprisionar nas certezas de um mundo que ignora e repudia a magia amorosa de existir dentro dos nossos quintais. Nos esquadros de todas as janelas.

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