
Em Portugal, na cidade do Porto – Foto de Nelson Padrella

Em Portugal, na cidade do Porto – Foto de Nelson Padrella
por Gregório Duvivier
Não precisa recomeçar nada do zero, é jogar fora o presidente que já resolve muita coisa
Querido Brasil. Uau. Duzentos anos! Não é todo dia que um país faz dois séculos. Que época esquisita pra fazer um aniversário tão importante. Deus me livre de completar uma data redonda dessas no meio sendo assaltado dentro de uma UTI. Imagina que tristeza se deparar com um AVC e um assalto à mão armada no dia do seu bicentenário. Sinto muito. Já nem sei o que dizer: meus parabéns, meus pêsames, sinto muito, tamo junto, Deus é mais, não repara a bagunça, desculpe qualquer coisa.
Nem parece, aliás, que você tem essa idade toda. Talvez ano de país a gente conte diferente, tipo ano de cachorro. Se cada ano de país vale por um mês de gente, você tem só dezesseis anos. Faz sentido: não consegue se manter sozinho, sai tacando fogo em todo verde que vê pela frente, se apaixonou por um canalha que te trata que nem lixo.
Às vezes parece que você nem nasceu. Às vezes parece que você ainda tá pra ser inventado. Taí: bem que podiam te reinventar do zero. Aliás do zero, não. Dá pra aproveitar uma coisa ou outra.
Eu deixaria o caldinho de feijão. Joga tudo fora mas deixa o caldinho. E a farofa. Com ovo, com banana, com ovo e banana. O pastel com caldo de cana. O chorinho. Um chorinho específico: espinha de bacalhau. E também aquele outro chorinho: aquele que sucede à dose de mate, ou de cachaça. “Só um chorinho”. Acho que isso é invenção nossa. E também o hábito de tomar banho todo dia. E de escovar os dentes depois do almoço. O cafuné, e todas as outras palavras só nossas pra carinho: o dengo, o xodó, o chamego, a paquera, o namoro, o chêro.
Também queria pedir pra guardar o samba, o samba-enredo, o samba de roda, e a roda de samba, e as escolas de samba, e o samba-reggae, e e o forró, o frevo, o carimbó, o axé e o pagode baiano. Os blocos de carnaval. E os arraiás. E se tiver espaço guarda também o soneto da fidelidade, o poema de sete faces, o galo tecendo uma manhã, a prosa toda do Machado, a morte da cachorra Baleia, a morte de Macabéa, a morte de Diadorim, a morte e vida severina, a morte e a morte de Quincas Berro d’Água.
Se possível vamos guardar o hábito da saideira ser por conta da casa. E o chope gelado, com colarinho grosso. E a empadinha, por favor. Não joguem fora a empadinha. De queijo, de camarão ou de palmito. E o empadão, claro. A goiabada cascão e o vira-lata caramelo.
Faz favor também de não jogar fora o pão de queijo. E não cometam a loucura de esquecer a paçoca. E sei que parece besteira, mas queria pedir pra não jogarmos fora os assentos acolchoados de privada. Só a gente que tem esse cuidado com as coxas numa hora tão delicada. E também as tampas de privada coberta por um bordado. Ninguém tem esse carinho por uma tampa de privada. E as comédias da vida privada. O filtro de barro São João. Coberto por um bordado. O prato âmbar. O estrogonofe com batata palha. A altinha, o bobinho, o gol a gol. O queijo coalho. E o Minas, e o da Canastra. O café do Caparaó. O sorvete de bacuri. O açaí na tigela. O bombom de cupuaçu. O arroz de jambu, o pato no tucupi, o feijão tropeiro e o arroz carreteiro. O grupo Corpo, o grupo Galpão, o Oficina, o Tá na Rua, o Olodum, o ilê, o Cacique de Ramos e o Cordão do Boitatá. E todos os morros, e todos os terreiros, e todos as nações indígenas, e quilombolas, e o SUS, e a Fiocruz, e o MST, e os Sescs…
Quer saber? Não precisa recomeçar nada do zero. Joga fora o presidente que já resolve muita coisa.
*Publicado na Folha de S.Paulo

Luminosa
Hoje acordei pensante.
E pensei bem.
Sorte de principiante.
Bolsonaro é imbrochável: nunca se cansa de f@d@r o Brasil.
O bastante é muito pouco.

Foto de Carlos Castelo
por Célio Heitor Guimarães
No final de julho, comemorou-se o dia das avós. Não as agraciei, na oportunidade. Talvez por indesculpável esquecimento, talvez em homenagem ao saudoso Sérgio Porto, o imortal Stanislaw Ponte Preta, que achava a data “uma cretinice”.
Lalau afirmava que só no Brasil colava uma idiotice dessas: “Se já se comemora o Dia das Mães, por que o Dia das Avós?” E indagava, com alguma razão: “Acaso alguém consegue a proeza de ser avó sem ter sido mãe?” Sérgio Porto não entendeu que, apesar do apelo comercial, era apenas (como ainda é) mais uma maneira de reverenciar e dar carinho às velhinhas, que tanto merecem.
Mãe é a coisa mais importante desta vida, mas avó é uma coisa especial, única, quase celestial, que apenas aqueles que têm ou são conhecem. Por isso, na condição de ex-porta-voz dos avós sem coluna e agora já bisavô, transcrevo aqui um belo texto que me foi enviado, certa feita, pelo avô Renato Mazânek. É uma ode à arte de ser avó, uma composição que será perenizada pela beleza, capaz de comover até mesmo aqueles que ainda não receberam a suprema glória de se tornar avó (ou avô):
Perguntaram a uma menina de nove anos o que ela gostaria de ser quando crescesse. Ela respondeu: “Eu gostaria de ser avó!”.
Ao ser interrogada do porquê desse decisão, respondeu:
— Porque as avós escutam, compreendem. E, além disso, a família se reúne todinha na casa delas.
E continuou: “Uma avó é uma mulher velhinha (*) que não tem filhos. Ela gosta dos filhos dos outros. Leva os netos para passear e conversa com eles.
“As avós não fazem nada e por isso podem ficar mais tempo com a gente. Como elas são velhinhas, não conseguem rolar pelo chão nem correr. Mas não faz mal. Elas nos levam ao shopping e nos deixam olhar tudo até cansar. Compram chocolate e sorvete. Na casa delas tem também um vidro com balas, outro com bolachas e outro cheio de suspiros.
“Elas contam histórias de nosso pai ou de nossa mãe quando eles eram pequenos, histórias de uns livros bem velhos com muitas fotografias. Passeiam conosco, mostrando as flores, ensinando seus nomes e fazem-nos sentir os seus perfumes.
“Avós nunca dizem ‘depressa!’, ‘já pra cama!’ ou ‘se você fizer isso, vai ficar de castigo!’. Quase todas elas usam óculos e eu já vi algumas tirando os dentes e as gengivas.
“Quando a gente faz uma pergunta, as avós não dizem ‘menina, não vê que eu estou ocupada?!’. Elas param o que estão fazendo, pensam e respondem de um jeito que a gente entende.
“As avós sabem um bocado de coisas. E elas não falam com a gente como se fôssemos bobos. Nem se referem a nós com exclamações tipo ‘que gracinha!’, como fazem as visitas.
“O colo das avós é quente e fofinho, bom de a gente sentar quando está triste.
“Todo mundo deveria ter uma avó, porque, com os avôs, são os únicos adultos que têm tempo para a gente”.
Eis aí porque as avós são as mais doces criaturas deste mundo. Duplamente mães – as bisavós são triplamente –, suprem com um sorriso, um olhar carinhoso e um gesto de puro afeto as lacunas deixadas pelos atarefados país. Merecem, pois, não apenas um dia especial, mas todos os dias da nossa existência.
E agora, se me dão licença, vou dar um beijo na bisavozinha que tenho aqui em casa.
(*) Hoje, nem tanto. Minha nora Melissa, por exemplo, tornou-se avó logo depois dos 40 anos.

Na praia da Tabuba, Alagoas – Foto de Ricardo Silva
– E o coração, chapa? A gente devolve ou fica com ele?
– Que coração, ô malacabado? Tou sabendo de coração nium.
– O do príncipe.
– O qual número?
– Não estou a perceber.
– O número um, o número dois, o três ou o quatro? E ainda tem a desafeiçoada, que não é príncipa não sei por quê.
– Nããã… o do Dom Pedro.
– Mas esse vivente já não morreu?
– Vivente o que te comeu; quem te governa sou eu.
Assim veio
Num gesto de acolhida e inclusão, médicos reunidos no 66º Congresso Brasileiro de Oftalmologia, que acontece em Curitiba até o dia 10, vão fazer atendimento voluntário a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. O objetivo é ajudar a reduzir a demanda reprimida de pacientes que deixaram de ser atendidos na rede pública por causa da covid-19 e aliviar a pressão sobre os serviços nesse período pós-pandemia. A ação se chama “Pequenos Olhares” e tem um detalhe importantíssimo: para as crianças em que for verificada a necessidade de lentes, o CBO entregará, posteriormente, com suporte das instituições parceiras, óculos de grau para correção dos erros refrativos. Os mais de mil jovens que serão beneficiados foram cadastrados previamente, por intermédio de instituições parceiras que prestam apoio à comunidade.
Do Filósofo do Centro Cívico
Quando o coiso fala “dentro das quatro linhas” ele não explica que ali estão os Nove Círculos, os Três Vales, os Dez Fossos e as Quatro Esferas que formam o Inferno.

Em Porto, Portugal – Foto de Nelson Padrella
… O Athletico irá a Guayaquil, no dia 29 de outubro, no papel de azarão como viajou a São Paulo. Duvidar de que possa voltar a Curitiba como campeão é outro direito amplo, geral e irrestrito. Mas a prudência exige que se duvide com moderação. (Juca Kfouri)
De um amigo do blog que ficou pasmo ao ver o seguinte espetáculo:
O ridículo e o vexame de um Presidente da República de um dos maiores países do mundo dando um beijo cinematográfico e de novela na jovem mulher para depois puxar um refrão de “ imbrochável” diante da multidão – e no ato solene e oficial da comemoração do dia da Independência.
Demonstração rasa de machismo e sexismo.
Certamente o gado adorou o gesto do seu ídolo e mito.
E o tal só discursa e representa para o gado mesmo, talvez daí um dos motivos de estacionar nesses 32 % alavancados entre reacionários, elitistas, evangélicos pentecostais e a indústria de fake news. Somados aos votos aliciados pelos bilhões dos cofres públicos e tudo que sabemos e lutamos contra.
Pelo menos isso serviu para um conhecido, que “falha” circunstancialmente – e é bolsonarista. ele se sentiu ofendido e não votará mais no coiso.

Gabriel Rischbieter – @agirafa
Da FSP
Morre Emanoel Araújo, gigante das artes plásticas afro-brasileiras, aos 81 anos
Primeiro curador do Museu Afro Brasil, ele se destacou com esculturas e ilustrações que ressaltavam herança negra
O artista plástico e intelectual Emanoel Araújo, um dos gigantes das artes de raiz afro-brasileira no país, morreu nesta quarta-feira em sua casa em São Paulo, aos 81 anos.
O velório acontece durante o dia no pavilhão do Museu Afro Brasil, que vai receber oficialmente o nome de Araújo, que foi curador da instituição de sua fundação, em 2004, até sua morte. Segundo o secretário estadual da Cultura, Sérgio Sá Leitão, o governador Rodrigo Garcia vai decretar luto oficial no Estado pela morte.
Araújo construiu, durante mais de seis décadas, uma carreira múltipla que ia da escultura à ilustração, da gravura à cenografia, sempre ressaltando o papel da herança negra na cultura nacional.
Sua primeira exposição individual foi em 1959, na sua Bahia natal, com um trabalho marcado pela xilogravura e pelas ilustrações voltadas ao teatro. A partir da década seguinte, sua obra foi se tornando mais abstrata.
Na década de 1970, foi premiado na 3ª Bienal Gráfica de Florença e pela Associação Paulista de Críticos de Arte, que o considerou o melhor escultor e gravador do país. Sua primeira individual no Masp, Museu de Arte de São Paulo, veio em 1981.
Não demorou para Araújo galgasse espaço como um dos principais curadores e museólogos do país, tendo dirigido o Museu de Arte da Bahia de 1981 a 1983 e a Pinacoteca de São Paulo de 1992 a 2002.
A direção do Museu Afro Brasil, localizado no parque do Ibirapuera em São Paulo, veio em 2004 coroando seu trabalho na curadoria e divulgação da arte negra no Brasil.
Sua pesquisa também se materializou no livro “A Mão Afro-Brasileira”, de 1988, obra de referência em que pensa as contribuições artísticas e históricas da população negra, reeditada pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo em 2010.
Emanoel Araújo passava por um momento de redescoberta de sua obra como artista plástico, ampliando sua projeção internacional pouco antes de morrer.
O Brasil não é para principiantes. (Tom Jobim)

Pesquisa realizada pelo PoderData de 4 a 6 de setembro para a sucessão presidencial revela que, no 1º turno, Lula (PT) tem 43% e Jair Bosonaro 37%. Ciro Gomes (PDT) tem 8% e Simone Tebet (MDB), 5%. A margem de erro é de 2 pontos percentuais. Isso sinaliza a provável disputa no segundo turno. Neste caso, segundo este levantamento, Lula teria 52% contra 40% de Bolsonaro.
Do Filósofo do Centro Cívico
Naquele jornal digital a manchete informa que “Tabela até o fim do Brasileirão é inimiga do Coritiba na luta contra o rebaixamento”. Uma alternativa seria dizer que os adversários são os verdadeiros inimigos. Outra, mais perfeita, é que o grande obstáculo é a bola.