Arquivo mensais:setembro 2022

7:04A rejeição de Bolsonaro

por Elio Gaspari

O que sobra se ele mudar?

Bolsonaro precisa mudar para reduzir a sua elevada taxa de rejeição. Vá lá. Como? Para quê?

Em 2018 o capitão foi eleito numa onda antipetista propondo um governo conservador nos costumes, liberal na economia e independente na política.

Para explicar como armaria sua independência política, prometia basear-se no que chamava de “bancadas temáticas”. Eleito, ele ainda não tinha tomado posse e o deputado Alceu Moreira (MDB-RS) ensinava:
“Quem disser que sabe qual é o resultado que esse novo modelo produzirá, de duas uma: ou é adivinho ou está mentindo”.

Não havia adivinhos no pedaço e o modelo foi o de sempre: o governo aninhou-se no colo do centrão.

O governo liberal na economia fechou o Posto Ipiranga e passou a vender picolés de carestia. Restavam dois temas: o conservadorismo nos costumes e o antipetismo. Conservador não é miliciano, não ofende mulheres e repele atitudes vulgares. Sobrava o antipetismo.

Ele existe, mas foi abalado por dois fatos. Uma foi a transformação da Lava Jato em poeira pela desmistificação de seus cavaleiros. O juiz Sergio Moro começou prometendo liquidar o arranjo corrupto dos partidos políticos, tornou-se todo-poderoso ministro da Justiça e Segurança Pública de Bolsonaro e acabou comprando bermudas com dinheiro do Podemos.

A segunda circunstância foi produzida por Bolsonaro. Se ele é a alternativa ao PT, o resultado está no Datafolha: 45% para Lula e 33% para ele.

Bolsonaro sabe que precisa mudar. Seu último Sete de Setembro não teve a essência golpista do anterior.

Dias depois, reconheceu que aloprou ao dizer tolices durante a pandemia. Insistiu na defesa da cloroquina e aí mostrou um aspecto da sua essência política. Quando ele começou a defender o fármaco muita gente boa estava receitando-o e tomando-o. Sua excepcionalidade está no fato de que acredita em fórmulas mágicas, como o nióbio, o grafeno e a transmissão de energia elétrica sem fios. Muita gente que tomou cloroquina entendeu que a droga não funcionava. Bolsonaro continua acreditando na mágica.

Pode vir a existir um Bolsonaro calado, até mesmo um Bolsonaro eventualmente gentil, mas um Bolsonaro mudado não existe. Assim como nunca existiram as bancadas temáticas, o Posto Ipiranga e os efeitos da cloroquina. Continua existindo o antipetismo, mas o eleitor se vê sem alternativa.

Assim como a soberba petista diante das malfeitorias de suas administrações ajudou a produzir a maré de 2018 e Jair Bolsonaro, passados quatro anos o capitão poderá produzir Lula.

DEBATE DA GLOBO

Pelo andar da carruagem, o resultado do primeiro turno da eleição presidencial será decidido no debate da TV Globo, marcado para o dia 29.

*Publicado na Folha de S.Paulo

18:13Levou!

O Gaiato da Boca Maldita vai dar o “prêmio poliéster de jornalismo” para a seguinte manchete da Gazetona sobre o comício de hoje do ex-presidente da República na capital dos paranaenses: “Lula nega ter ódio de Curitiba, onde esteve preso: “Conheci a Janja”

17:53Na má hora de Bolsonaro

por Janio de Freitas

Medo da derrota nas urnas pode gerar ataque desvairado da criminalidade

1 — O período entre a eleição e a posse está propenso a ser alarmante, mas não por desatinos militarescos. Três meses a mais da matança já em curso de chefes indígenas, invasão das terras de reserva, maior desmatamento, novos e urgentes garimpos ilegais —um ataque desvairado da criminalidade em tempo de aproveitar a licenciosidade que Bolsonaro lhe proporciona, por sua própria criminalidade. A ofensiva apressada pelo medo da derrota eleitoral.

É o que está havendo em grande parte do Brasil, não só na Amazônia. E sem providência alguma nos muitos braços do governo destinados a esses problemas. Onde consta haver ou ter havido algum olhar da Polícia Federal, sempre por apelos desesperados, nada de resultante se registra contra a ilegalidade armada e endinheirada. Nas informações imprecisas, as mortes de chefes indígenas já estão entre sete e dez.

A única maneira de talvez conseguir-se algumas providências é maior atenção da imprensa para as situações agudas, ao menos essas. Não seria generosidade. É um dever historicamente muito mal cumprido pela imprensa. Como se não compreendesse que relegar a dimensão humana e moral do extermínio de indígenas e da exploração ilegal de riquezas públicas é, no mínimo, também conivência com essa criminalidade.

2 — Mostrou-se com clareza uma particularidade de Bolsonaro até agora pouco observada: a ingratidão. Seu insulto a uma jornalista rivalizou, em espaço de imprensa e tempo de TV, com nada menos do que a eleição para a Presidência do país. Embora não fosse comparável aos insultos dirigidos às jornalistas Patrícia Campos Mello, Míriam Leitão, Elvira Lobato e outras, teve a particularidade de tomar o lugar do que devia ser um agradecimento de Bolsonaro.

De sua parte, Vera Magalhães poderia mesmo surpreender-se. Até a recente transferência para O Globo, sua atividade no Twitter, na Jovem Pan, em artigos foi integrante da incitação ao clima furioso que favoreceu Bolsonaro. Um exemplo poderia bastar: no extenso rol de agressões verbais recebidas pela Folha, talvez nenhuma seja tão brutal quanto a de Vera Magalhães, apenas pelo convite a Guilherme Boulos para uma colaboração temporária —em conformidade com o pluralismo único da Folha.

Nestes dias, as redes estão repletas de mensagens inesquecíveis da jornalista, com predileção por suas frases na morte de Marisa Lula da Silva. O que explica o insulto de Bolsonaro, e ainda a pergunta boba do deputado que o repetiu, parece ser menos a condição feminina aviltada pelo bolsonarismo do que a perda de uma jornalista útil, de repente moderada no novo emprego. Bolsonaro foi até explícito no ataque à jornalista (“você envergonha o jornalismo”), não à pessoa.

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14:04O bufão

por Nelson Padrella

O bufão é, antes de mais nada um bobo. Sua missão é fazer rir as pessoas da corte. Ser palhaço não o diminui como pessoa humana, pelo contrário, grandes palhaços levaram alegria a muitas pessoas e são respeitados por isso. O bufão, segundo entendemos, é um palhaço especial, é apenas um bobo. Bobo que torna-se engraçado quando inventa de ser mais do que é, por exemplo, quando planeja sentar-se no trono real quando o monarca saiu pra comprar cigarro. No calendário politico do país existe uma lacuna: o Dia do Bufão. Isso precisa ser criado.

14:01Maldita boca

por D’Alencastro Menezes

Quem tem boca maldita fala o que não quer pra ver a língua comprida se salivar de tantas palavras jogadas no ventilador de um evento que espalha notícias falsas pra quem já está tão vacinado que não pode ver uma gripezinha por aí que já quer levar pra casa com a bala na agulha pra disparar seu voto de confiança lá do lado de lá onde tem gente que gosta muito de abraçar uma teoria que na prática só vale mesmo pra enganar quem se acha o novo rei dos reinos unidos pela mesma causa de eleger o dono da cocada toda.

 

12:33Hipocrisia

O Gaiato da Boca Maldita leu na Gazetona: “Em comícios no Paraná, Bolsonaro pede fim da guerra na Ucrânia e destaca realizações de seu governo”. Ficou nerviosso e sapecou de primeira: “Tremenda hipocrisia: ele estava em Prudentópolis, maior concentração de ucranianos do país e onde foi amealhar votos dos incautos. É preciso lembrar que na ONU o Brasil não se posicionou contra a invasão dos russos”.

12:30Lá e cá

De um amigo do blog:

Telejornais se espantam com britânicos que ficam até 14 horas na fila para se despedir da rainha. Aqui os brasileiros dormem na fila e no frio pra conseguir atualizar o Cadúnico e receber os R$ 600 do governo.

7:44‘Barrigada’ em Dallagnol

Ontem a RICmais escrachou que a candidatura do ex-procurador Deltan Dallagnol tinha sido impugnada pelo TRE do Paraná (ver abaixo). Até que a ‘barrigada’ (erro jornalístico) fosse tirada do ar, a coisa se espalhou. O candidato aproveitou para faturar e publicou vídeo onde diz: “Todo dia atacam minha candidatura com mentiras. ESTOU ELEGÍVEL. Não acredite em fake news”, pediu para que compartilhassem o vídeo e, obviamente, pediu voto. Um simpatizante escreveu na internet que era coisa de petista. Um outro ironizou: “A RIC é petista?”. Segundo um advogado que entende do riscado, o que aconteceu foi que o TRE deu um prazo para o candidato apresentar mais documentos na defesa que faz contra os pedidos de impugnação de sua candidatura, daí a origem do erro da RIC. A decisão sobre o assunto ainda será tomada. Isso é campanha!

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7:29NELSON PADRELLA

Estava o ceifador a chorar suas lágrimas sáurias quando patroínha suspendeu (a alça da combinação?)… quando patroínha suspendeu o mais novo pela garganta e disse: “você pare com isso”. O pequenino, que não estava fazendo nada, não captou o que se passava. Até olhar para baixo e ver o pai derramando lágrimas sáurias no tapete da sala. Curioso como era, o fedelho perguntou o que eram “lágrimas sáurias”, e o diabo, que outro não era se não o assador de batatas, explicou que sáurio é a mesma coisa que jacaré.
Tudo ficou claro como a anágua de madame. O ceifador tinha tomado a vacina dos cem anos (tinha esse nome porque o povo ia ficar cem anos sem saber que Afanásio – um dos nomes que costumava usar – sem saber que Afanásio tinha, sim, se deixado vacinar). E que agora, medroso de virar jacaré chorava lágrimas de crocodilo.
E então, o diabo assador de batatas meteu as mãos na cintura e disse para que o outro ouvisse: “Ora seja”.

7:19Bichos escrotos

por Luiz Francisco Carvalho Filho

O projeto de Jair Bolsonaro não é o bem-estar, é a ideologia

O presidente da República não se comove com centenas de milhares de mortes durante a pandemia, mas vai para Londres tirar fotografia com o cadáver da rainha.

Jornalistas são ofendidas e atacadas porque Jair Bolsonaro é desgraçadamente misógino e repugnante. Foi assim com Patrícia Campos Mello. É a vez de Vera Magalhães. Ele tem profunda aversão a mulheres protagonistas.

Bolsonaros, Silveiras, Damares, Garcias, Pazuellos, Zambellis, Salles, Tarcísios são criados à imagem e semelhança.

É como uma agência pública de desmanche institucional. Cada qual ao seu modo, eles corroem valores humanitários e democráticos. Eles gostam de mamata. Eles cortam merenda escolar.

Criam embaraços burocráticos para a realização do aborto legal: não se importam com o sofrimento da vítima. Estimulam o desmatamento e reduzem a proteção do meio ambiente: não se importam com o clima e com a fuga de investidores. Como garotos-propaganda de setor empresarial em franco crescimento, contra as estatísticas favoráveis ao desarmamento, estimulam o consumo de armas de fogo.

O projeto político de Jair Bolsonaro não é o bem-estar da população. É a luta ideológica.

Para difundir fake news, fingem ser cidadãos civilizados. Dificultam o exercício de direitos. Enfraquecem saúde, educação e ciência. Dominam instituições públicas que deveriam agir com autonomia, como órgãos de Estado e não de governo. Não admitem o pensamento divergente. Desprezam intelectuais e pesquisadores. Enaltecem o papel do torturador. Toleram a morte de suspeitos.

Infestam o palácio do Planalto e querem infestar outros palácios, além de igrejas e quartéis. Tem magistrado que viaja em jatinho de advogado. Tem oficial do Exército fazendo negócio em ministério. Tem pastor evangélico fazendo negócio em ministério.

Generais fustigam a Justiça Eleitoral para gerar desconfiança em relação a resultado eleitoral desfavorável. Igrejas exaltam a luta do bem contra o mal, mas, com efeito, a figura política desprezível de Jair Bolsonaro estaria mais conectada a Satanás do que a Jesus.

Tem empresário que patrocina manifestações contra a democracia e a favor de golpe de Estado. Tem empresário que nega marmita para eleitora pobre que vota na oposição —modalidade de compra de voto? Tem fascistas no Brasil.

O ministro liberal da Economia, assim como o seu ideário de equilíbrio fiscal, foi lançado para o espaço sideral. Para a reeleição, vale tudo.

O conluio com o centrão: num cenário de muita carência, prevalecem critérios políticos para a distribuição de recursos públicos. O dinheiro do Brasil está nas mãos duvidosas de deputados e senadores aliados, em troca de apoio ao governo.

Com o uso cínico da cerimônia do bicentenário da Independência para fins eleitorais, empregando pessoal, verbas e equipamento militar, as Forças Armadas de Jair Bolsonaro cometeram um extraordinário peculato ideológico. Para a reeleição, vale tudo.

Cúmulo da ironia, Alagoas, terra de Arthur Lira, o todo-poderoso senhor do orçamento secreto, é o estado onde há a maior proporção de pessoas passando fome no Brasil. Eles não se importam com a fome.

Há 40 anos surgia em São Paulo a banda Titãs, artistas fundamentais para a minha geração. Inevitável lembrar de “Bichos Escrotos”, entre tantos e tantos retumbantes sucessos: “Porque aqui na face da terra / Só bicho escroto / É que vai ter / Bichos escrotos saiam dos esgotos”.

*Publicado na Folha de S.Paulo