por Paulo Roberto Motta
Durante o repasto, Fortuna fez uma proposta. Naquele mesmo dia iria ao
Jornal do Brasil e colocaria um classificado com a seguinte frase: “Necessito de
uma cuidadora de homem idoso que faça também serviços domésticos”. O
Barão de Itararé explodiu: “Ganho um salário mínimo de aposentadoria, como
vou pagar?”. Fortuna respondeu: “Eu pago e não se fala mais nisso”. “Pago
também as despesas do supermercado e da farmácia”. Despediu-se do Barão
de Itararé e disse que voltaria na manhã seguinte, bem cedo, para selecionar
as candidatas.
Selecionou uma das candidatas, uma senhora distinta, com grande experiência
com idosos. A primeira guerra da distinta foi o de acabar com as baratas e as
formigas. Depois de longas batalhas, venceu e Fortuna sempre encontrava o
Barão de Itararé e o apartamento limpos e asseados. Até o dia 27 de novembro
de 1971, quando o Barão de Itararé deu seu último suspiro, Fortuna
compareceu todos os dias no apartamento para conversar com o amigo que
fez.
Desmentiu, na prática, uma das máximas do Barão: “De onde menos se espera
é que não sai nada mesmo”.
Em 1972, sem mercado no Rio de Janeiro, o Correio da Manhã havia fechado
e o Pasquim pagava pouco (se tivesse que pagar o que os seus colaboradores
valiam, fecharia no primeiro número), Fortuna foi para São Paulo trabalhar na
editora Abril. O colocaram na revista Cláudia, onde passava a maior parte do
tempo respondendo as cartas das leitoras com o pseudônimo Ana Maria.
No ano de 1975, o DOI-CODI começou a prender jornalistas do partido
comunista. Entre eles, foi preso e depois assassinado, Vladimir Herzog. Na
mesma turma detida, foi levado para a Rua Tutóia o diretor de arte da revista
Veja, George B. J. Duque Estrada. Mino Carta, o então diretor da Veja, mandou
chamar o Fortuna. “Vou manter o nome do George no expediente, até mesmo
para que ele não morra também. Mas você assume a direção, supervisiona a
diagramação e edita as capas. Se topar faça também um cartum por edição”.
Cansado de ser Ana Maria, e mesmo não aparecendo no expediente, Fortuna
topou a proposta na hora e pôs a mão da massa. Despreocupado com as
coisas materiais, nem perguntou quanto iria ganhar.
Duque Estrada ficou preso alguns meses e no final do primeiro mês em que
substituiu o diretor de arte detido, Fortuna abriu o contracheque e ao ver o valor
do salário entrou em choque.
Invadiu a sala de Mino Carta, com o contracheque na mão e gritou: “Mino, o
valor deste contracheque é um escândalo”. Curioso, Mino olhou o
contracheque e observou: “Mas Fortuna, é um ótimo salário!”. “Ótimo? O
salário é uma indecência. Não mereço ganhar metade da metade da metade
do que estão me pagando. Exijo que reduzam o salário para 25% do valor
pago”. Mino caiu na risada e disse: “Fortuna, a Veja tem uma tabela salarial e o
salário do diretor de arte, mesmo interino, é esse. Vai trabalhar e para de me
encher o saco”.
George B. J. Duque Estrada foi solto mais tarde e retomou suas atividades na
Veja. Fortuna ficou fazendo ilustrações e cartuns para a revista. Quando Mino
Carta foi demitido, em 1976, pediu a conta.
Que figura fantástica esse Fortuna! Parabéns Paulo Motta pelo texto!
Obrigado Francisco Lima. Forte abraço.
Muito obrigado Francisco Lima.
Forte abraço.