por Sergio Brandão
Adeus, Nilo!
De quando o futebol era diferente. Não que era melhor, não é sobre isso. Falo de quando o futebol era mesmo diferente porque a gente sentia ele diferente. Da época que havia alambrado, que parecia ter a função de separar os mortais dos imortais. Da época sem televisão, dos exageros dos locutores de rádio. Foi quando se criou uma geração que aprendeu a ler o futebol criando imagens através do rádio.
Mais de 50 anos se passaram e agora tá tudo na palma da mão. Não, ele continua tendo graça. Ficou diferente, só isso. Até um novo Pelé surgiu, aliás vários brigam por este título: melhor, igual ou inferior que Pelé. Mas também não é sobre isso que quero falar. Vivi e ainda vivo os dois tempos. Por isso, quando morre Krueger, Zé Roberto, Célio, Fedato, Nico, Sicupira, todos de uma só época, morre o meu primeiro futebol. Quando morre Maradona, morre outro futebol.
Hoje acordo com a notícia da morte de Nilo, lateral esquerdo do Coritiba, do meu primeiro futebol. Aquele que com orgulho vi vestir a camisa da Seleção Brasileira, no Belfort Duarte, numa partida preparatória para a Copa do México, em 70. Época que vestir a “canarinho” era coisa sagrada e não andava por aí, no corpo de qualquer um.
Foram estes caras que formaram na minha cabeça e tatuaram na alma de muita gente, a primeira ideia do era o futebol que jamais vai morrer.
Não morreu Nilo, nem morre a história que ele ajudou a construir nestes mais de 50 anos que acompanhando futebol. Vai um ícone que fez parte da minha formação. Nem Krueger, nem Nilo, Zé Roberto e os outros, sabem disso. Porque estavam do lado de lá do alambrado. Mesmo que tenham saído do gramado, pulado o alambrado e tenham se sentado na arquibancada… serão sempre imortais e serão como divindades que deram shows em gramados de estádios pelo mundo, hoje chamados de arenas para o outro futebol.
Nilo é do tempo que futebol era arte, poesia, inspiração, alegria.
O futebol de hoje é frio, cartesiano , raramente a sensibilidade de outrora, ou lazer, mas, o negócio devido a paixão mundial pelo esporte. Esporte que fatura e movimenta bilhões na aldeia global.
Quem diria que o futebol teria esta grandeza uma imensa indústria do entretenimento.