18:56ZÉ DA SILVA

Nunca enganei minha mãe. No máximo, omiti algumas coisas para preservar sua sanidade. Mas não mentia ou inventava, porque, logo cedo, ela mostrou com quem eu estava lidando. Eu tinha uns seis anos, calça curta e de suspensórios, barrigão com umbigo estufado, cabeção enorme e achatado atrás, porque fui retirado a fórceps para enfrentar o mundão. Um dia ela parou na minha frente, ficou olhando bem nos meus olhinhos claros e disse, de boa, sem preconceito: “Este meu filho tem uma cara de puta santa…” Fui liberado, assim, como a dizer palavrões, porque ela falava o dia inteiro, mas sem ofender, apenas como expressão maior e contundente da nossa língua brasileira. Fiquei liberado para sempre. Um dia, depois de anos de terapia, descobri que não era só meu pai que, fechado, trancado, olhar de furar tudo, não conseguia dar carinho, etc. Ela também era assim, mesmo porque cuidava do marido como se fosse o filho mais velho – e carente. Contei isso à minha amada. Ela, raciocínio rápido como uma repentista nordestina, explicou na hora – e isso foi mais uma grande lição da vida: “Eu não aprendi de outro jeito”. Então, intensifiquei o meu, porque ela me apresentou mais um caminho.

 

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One thought on “ZÉ DA SILVA

  1. TICIANA VASCONCELOS SILVA

    O caminho é subliminar e está dentro de todos nós. Caminhamos a passos dados pelos nossos pais, porque, pelas minhas memórias falhas de infância, eu corria para alcançar meu pai que tem mais de 1,90m de altura e eu era uma pequena criatura a buscar o amor dele. Queria acompanhá-lo já desde cedo. Meu pai sempre demonstrou o amor como pôde e bem sei eu que foi da melhor maneira possível. Como ele sabia. E eu entendi mesmo antes de vir ao mundo de Deus.
    Obrigada, pai, por me orientar na caminhada. Apesar de eu sempre achar que devo voar, porque tenho asas de passarinho solitário nos fios elétricos cantando na chuva.
    Essa sou eu, um pequenino pássaro no chão, dando os meus pulinhos, voando baixo para ficar perto de quem me ensinou tudo perfeitamente: meu pai.

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