Um Cristo de cabeça desproporcional olha tudo lá de cima do morro. Perto dali os índios Xucurus não deixam chegar muito perto. Um padre canta no serviço de alto-falante. A casa onde morou Graciliano Ramos está fechada, como quase toda a cidade. Fim de tarde. Fugi no meio do dia para um quente para o sítio. No cemitério ao lado da rodovia, 3/4 da família estão dentro de gavetas. Flores de plástico na contraluz e adornando uma cruz são bonitas. Ali chorei e, tempos atrás, fiz fotos. No pedaço de terra de origem um cachorro ficou viciado em remédio. A casa tem câmeras de segurança. Há algum tempo a dona precisava buscar água a 10 quilômetros. Está quase com 90 anos. Lúcida e engraçada. Já deu tiro para espantar ladrão de galinha. Pergunto como ela está. “Amassando bosta na mão”, responde. Eu digo que ela, eu e a maioria do povo brasileiro. Ela ri. Há um crucifixo na sala. Duas motos estão ali. Não é decoração. Camarão de água doce é servido. Não se come carne na sexta-feira santa. Lembrei de um amigo que se foi e estudou em seminário. Sempre recordava o padre que perguntava em sala de aula quem matou Jesus. Fomos nós.