17:48ZÉ DA SILVA

Um Cristo de cabeça desproporcional olha tudo lá de cima do morro. Perto dali os índios Xucurus não deixam chegar muito perto. Um padre canta no serviço de alto-falante. A casa onde morou Graciliano Ramos está fechada, como quase toda a cidade. Fim de tarde. Fugi no meio do dia  para um quente para o sítio. No cemitério ao lado da rodovia, 3/4 da família estão dentro de gavetas. Flores de plástico na contraluz e adornando uma cruz são bonitas. Ali chorei e, tempos atrás, fiz fotos. No pedaço de terra de origem um cachorro ficou viciado em remédio. A casa tem câmeras de segurança. Há algum tempo a dona precisava buscar água a 10 quilômetros. Está quase com 90 anos. Lúcida e engraçada. Já deu tiro para espantar ladrão de galinha. Pergunto como ela está. “Amassando bosta na mão”, responde. Eu digo que ela, eu e a maioria do povo brasileiro. Ela ri. Há um crucifixo na sala. Duas motos estão ali. Não é decoração. Camarão de água doce é servido. Não se come carne na sexta-feira santa. Lembrei de um amigo que se foi  e estudou em seminário. Sempre recordava o padre que perguntava em sala de aula quem matou Jesus. Fomos nós.

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