15:03Guerras

por Mário Montanha Teixeira Filho

É senso comum dizer que as guerras contemporâneas não se compreendem no singular. Elas vêm acompanhadas, invariavelmente, de disputas laterais, informações desencontradas, conclusões interesseiras e falsas. O que se vê, agora, na crise enorme que envolve Rússia, Ucrânia, Otan e adjacências, é isso. Ficou complicado e indigesto acompanhar o conflito pela chamada grande mídia. As simplificações são absurdas e quase infantis. Canais de televisão, comentaristas – “especializados” ou nem tanto – que habitam os veículos de imprensa e curiosos de tipos diversos se apressam a apontar heróis e bandidos, a escolher um lado, o do “bem”, e demonizar o lado contrário.

Em meio a essa comunicação enviesada, e consciente da minha ignorância, tenho procurado alternativas. Recorro aos que conhecem a vida, a geografia, os costumes e a situação econômica da região. Aos que procuram dissecar os interesses que movem um Estado a lançar mísseis contra a população civil do seu inimigo, aos que não ignoram o drama de quem vê parte do seu território e da sua existência ser arrasada. Percebo, então, que os que sabem do assunto são os que não ostentam respostas prontas, previsões definitivas ou julgamentos morais implacáveis. Por isso, talvez, apareçam pouco nas imagens pasteurizadas que se oferecem diariamente aos nossos olhos. Sua presença poderia perturbar os enredos traçados pelos donos de tudo. Não são bem-vindos.

Com paciência, espero entender. Por enquanto, fico com a sensibilidade de um cartunista que já morreu. Num livro antigo, repleto de charges desenhadas pelo genial Quino, há uma série com críticas à indústria das armas, que alimenta as guerras e se alimenta das guerras. Extraio dali muitas ideias. Numa das tiras, um menino lê num livro a informação de que os antigos acreditavam que o mundo se apoiava nas costas de tartarugas. E pergunta ao seu pai o porquê dessa crença. A resposta: “eles eram ignorantes, muito ignorantes”. Afastada a imagem, aparece o retrato da contemporaneidade: o planeta colocado sobre tanques enormes e seus canhões.

Obrigado, Quino.

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