por Paulo Roberto Ferreira Motta
Eis as descobertas de Milton Ivan Heller na Biblioteca Pública do Paraná:
No final da 1ª Guerra Mundial, a Alemanha se encontrava destroçada e tomada pela inflação. Um ovo custava 8 bilhões de marcos pela manhã e 15 bilhões de marcos no final da tarde. As notas de dinheiro eram impressas dum lado só, para economizar tinta. Historiadores contam que as pessoas iam na padaria carregando o dinheiro num carrinho já que o mesmo não cabia na carteira. Quando assaltadas, os ladrões levavam os carrinhos e deixavam bilhões de notas no chão. As notas serviam apenas para comprar um pãozinho.
Em Munique, vivia um tal Hirschmann, sem qualquer perspectiva na vida. Recebeu uma carta de uns parentes que viviam no interior de Santa Catarina. Sabiam das dificuldades em que vivia e o chamavam para o Brasil, onde havia muita chance para se ganhar dinheiro e se dar bem na vida. Hirschmann resolveu arriscar, convenceu a esposa e após algumas semanas aportou em Santos e pegou o trem para São Paulo, de onde partiria para Santa Catarina nos dias seguintes. Ficou impressionado com a capital paulista e suas centenas de indústrias. Não era um homem que soubesse de agricultura. Sempre havia trabalhado em fábricas. Pensou que era muito melhor ficar ali e tentar uma colocação. Competente, fez uma grande fortuna, era um quase engenheiro numa cidade que precisava de muitos e pagava bem para quem conhecesse o ofício. A falta de diploma era mero detalhe. No Brasil, para alegria do casal, nasceu a filha Margarida. Viviam felizes e nem tinham saudades da Alemanha. Quase no final dos anos 30, Hirschmann é acometido de grave moléstia. Consulta vários médicos e todos são unânimes: não havia cura para a doença. A morte era questão de um ano, talvez um pouco mais. Um único médico lhe deu esperança: “O senhor é um homem muito rico, volte para a Alemanha, lá a medicina é muito mais avançada do que aqui. Talvez os colegas alemães consigam a sua cura”.
Hirschmann achou a ideia excelente. Tinha dinheiro para dar conforto à família na Alemanha. Além do mais, Margarida já estava na idade de casar e entrar numa universidade. Em Munique, certamente acharia um bom noivo alemão e ela cursaria algo compatível com a sua feminilidade na universidade. Escolheu, para tanto, o fatídico ano de 1939. Os médicos alemães concordaram com os colegas brasileiros, tratamentos somente paliativos, a morte chegaria meses depois. Margarida, que era fluente na língua alemã, que aprendeu com os pais, não encontrou namorado e nem entrou na faculdade. Ficava em casa cuidando do pai idoso e doente. Fazia as compras, levava o pai aos médicos, comprava e ministrava os remédios, na verdade placebos.
Com o início da Segunda Guerra, em setembro de 1939, a Gestapo bateu na porta dos Hirschmann. Todos os homens haviam sido recrutados e as mulheres capazes deveriam trabalhar em prol da Alemanha. Margarida protestou, era cidadã brasileira, seu pai estava doente e a família tinha dinheiro para se manter. Não teve conversa, Margarida “entrou” para o Serviço de Trabalho Obrigatório do Reich de Hitler. Foi trabalhar como taquígrafa, ofício que havia aprendido em São Paulo, na Rádio Berlim.
Quase na mesma época em que Hirschmann se instalou em São Paulo veio morar na mesma cidade um italiano chamado Mastrangelo. A especialidade de Mastrangelo era montar e instalar Estações de Rádios. Correu o Brasil inteiro fazendo isso. Ficou milionário e tinha um hobby, ouvir música brasileira. Adquiriu milhares de discos em 78rpm. Sua cantora predileta era Carmen Miranda, tinha todos os bolachões da portuguesa que fez fama no mundo inteiro como a “brazilian bombshell”. Em 1942, milionário, Mastrangelo voltou para a Itália.
Quando os brasileiros pisaram na Itália, Mastrangelo procurou a Gestapo com uma ideia, montar uma rádio como arma psicológica contra os soldados que vinham de longe. Claro que não esqueceu de pedir uma montanha de dinheiro. Os nazistas acharam a ideia fantástica, lhe deram todo o valor que pediu e Mastrangelo montou a rádio na cidade de Como. Pediu apenas que lhe fornecessem um sonoplasta e uma locutora brasileiros. O sonoplasta tinha que ser homem e a locutora mulher, afinal um homem obedece muito mais a voz feminina, pela elementar razão de que foi criado pela mãe.
A Gestapo lhe mandou um prisioneiro de guerra brasileiro chamado Carlos Pinto que tinha como ofício a sonoplastia. Margarida foi a locutora escolhida. Ao chegarem em Como foram comunicados do seu novo trabalho. Carlos se negou, disse que não trairia sua Pátria, e, sem maiores delongas, foi fuzilado. “A Pátria Mãe Gentil”, “sempre tão distraída”, jamais lhe prestou as devidas homenagens. Ao ver a cena, Margarida “aceitou” ser a locutora da rádio. Dias depois, chegou outro prisioneiro brasileiro, Antônio da Silva. Comunicado dos fatos por Margarida, não teve escolha e colocou os discos na vitrola na frente do microfone onde Margarida falava entre uma música e outra de Carmen Miranda. A rádio, conforme se viu, recebeu o nome de auriverde.