6:36Olhos insanos

por Thea Tavares

Um arrepio gelado subiu pelo seu corpo. Mesmo em modo instrumental e com ritmo mais calmo, ela conseguia identificar a música que tocava na estação de rádio do consultório médico e o verso que encaixava com exatidão naquele trecho da canção, cuja letra o arranjo omitia: “…naqueles olhos, olhos insanos. Os olhos que passavam o dia a me vigiar”. Lembrou que uma amiga, certa vez, lhe contou que conhecera o autor e que ouvira do próprio uma versão um tanto diferente da que é propalava sobre os fatos que inspiraram aquela música e que estariam relacionados a um drama familiar. De um jeito ou de outro e fazendo um trocadilho com o nome da banda em questão, poderia ser sobre a vida de qualquer um de nós.

Percebeu que, no mesmo instante em que pensava nisso, uma mulher, sentada à sua frente, poucos metros distante, não tirava os olhos de Helena e, ao vê-la intrigada, esboçou um sorriso quase piedoso, acompanhado de um olhar marejado de acolhida. Pelo menos, foi o que sentiu naquele momento, ali, cercada de paredes brancas e de vidros esverdeados. Ao passar perto, ouviu a senhora lhe dizer: – Você está elegante neste vestido! Ele cai muito bem em você.

Agradeceu, ainda confusa, se perguntando se teriam se conhecido em algum outro lugar. Ao que a mulher emendou: – Você nasceu de novo, né, minha filha? É uma sobrevivente!

– Desculpe, mas não estou entendendo. Já nos conhecemos? A senhora não está me confundindo com outra pessoa?

– Não. Ele ia matar você naquela noite. Lembra de quando apertou o seu pescoço?

Não conseguia dizer mais nada, estava lívida! Então, a mulher continuou:

– Algo segurou as mãos dele. Porque a intenção era essa.

Quase desmaiou ali mesmo, não fosse a paralisia e o congelamento instantâneo de todos os músculos do corpo. Sentiu-se nauseada e um arrepio mais forte eriçou os pelos da sua nuca, enquanto desabavam sobre Helena lembranças que já tinha arquivado na lixeira dos pensamentos, como se essa atitude por si só eliminasse os efeitos ou a sombra daqueles acontecimentos de anos atrás.

Olhos insanos… A música continuava tocando apenas na sua cabeça, assim como a visão diabólica que lhe encarava na memória, destilando um ódio determinado e profundo de aniquilação. Rejeitado, o homem do seu passado não admitia um rompimento pacífico e o olhar transfigurado comunicava aquela opressão doentia, criminosa e apavorante. Conseguiu, num insight, reter a respiração e concentrar cada fibra e energia do corpo na calma de manter-se viva. De repente, vendo-se novamente nas dependências da clínica médica, o tecido que lhe cobria a pele parecia ser “o seu melhor vestido de sofrer”, como diz outra canção do mesmo grupo musical. Ao que a mulher interveio, novamente, em socorro a Helena:

– Não pense assim! Você está aqui, linda, e pode escrever uma nova história. Pode, inclusive, ajudar a curar muitas feridas. Essa é sua missão agora e as mentes deste tempo encontram-se mais abertas para entender. Aproveita a chance, minha filha!

Aquela mulher era alguma espécie de Raio-X espiritual do consultório? Seria um fantasma, anjo ou o diabinho inquieto da sua consciência? Precisava respirar, uma vez que recuperara a noção de tempo e espaço.

– Desculpe, minha senhora. Obrigada pelas palavras e pela boa vontade, mas acho mesmo que a senhora me confundiu com outra pessoa. Boa tarde e com licença!

A caminho do trabalho, por sua vez, Henrique ouvia no rádio do carro uma canção, cuja letra timbrava na sua alma com notas e compassos repletos de afinidades: “Não é amor, pode ser que tenha começado assim. Não considere como se fosse também esse o fim”. O arrepio que sentiu no braço vinha, arrebatado pela letra da música e à revelia da luz solar que bronzeava sua pele naquele início de tarde, lhe remeter às preocupações acerca da batalha que enfrentaria nos próximos períodos. Nem sabe precisar quanto tempo levará, independentemente dos trâmites legais, para ter a tranquilidade restabelecida e para alcançar uma cura emocional do processo que sinaliza ser doloroso. A todos os envolvidos.

Retardou ao máximo tomar as decisões que há tempos já eram prescritas pela sensatez e adotou os cuidados imagináveis para que tudo fosse digerido com muita maturidade e respeito, além de implicar na menor carga de sofrimento possível. Até que não aguentou mais carregar a culpa de manter aquela situação indigna da caminhada deles e paga o preço da finalização mal assimilada na forma de uma outra violência familiar, classificada na literatura pertinente como alienação parental.

A natureza humana tributava, tanto a Henrique quanto à Helena, valores muito altos e diferentes vestimentas de suas cruzes. Sem sequer se conhecerem ou trocarem impressões e confidências sobre essas sincronicidades e correspondências, suspeitavam igualmente que a evolução pessoal demandasse tais tribulações. A crença em nada justificava as falhas, os erros cometidos ou as agressões que lhes abriram as feridas, nem aliviaria as devidas responsabilizações. Apenas os fortaleceria em suas buscas e caminhos. Assim, vamos encontrá-los, inúmeras existências depois, em nova corrida e com os dedos metaforicamente entrelaçados em mais uma jornada.

A notícia no telejornal reportava para ela os indicadores extraídos de uma pesquisa feita pelos serviços públicos de atendimento às mulheres em situação de violência doméstica e familiar. Durante a pandemia, os registros desses crimes explodiram, apesar e favorecidos pelas condições do isolamento que, ao mesmo tempo em que dificultam a denúncia e o socorro, potencializam a perversidade das ocorrências. Sozinha, acariciando o gato que dormia encostado a ela no sofá, agradeceu em preces o distanciamento, naquele contexto, de uma vida de anulações, mordaças e da imputação de culpas que um dia ela assumiu indevidamente por puro instinto de sobrevivência.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.