A enfermeira me espetou a veia da mão direita. O soro com o remédio começou a circular para aliviar a dor no tendão do tornozelo. Madrugada. Então eu vi. Ela entrou com um short de jeans apertado, uma enorme barriga aparecendo e quase caindo sobre a cintura. Idade indefinida, mas ‘sambada da vida’. Quilos de maquiagem barata no rosto – e ali, dois olhos em fogo. Sentia dor. Sentou na cadeira ao lado. Gemia. Foi então que notei o machucado acima da barriga. E o odor de álcool impregnando aquele canto. Parecia ter caído de frente numa calçada ou algo assim – o arranhão deixou marcas de sangue. Logo estava sendo medicada, mas reclamava. De vez em quando olhava pra mim – e esboçava um sorriso no meio daquilo. Então, se virava, encostava a cabeça na parede ao lado – e pedia a deus para que o tormento passasse. Então, vi a cicatriz enorme, no flanco esquerdo, fazendo uma curva de vários centímetros em cima da costela. Facada? Uma sobrevivente. Mais uma no Brasil perdido e desconhecido. Antes de sair dali no meio da madrugada, vi lhe aplicarem uma injeção. Fui embora sem dor, lembrando o que ela disse que tinha acontecido para aparecer ali daquele jeito: “Fui a uma festa e, de repente, estava desse jeito”.