7:18Caracas fica a 3.600 km

por Elio Gaspari

A História rima, mas não se reproduz

A Venezuela continua longe, mas ficou mais perto. Os desastres históricos acontecem aos poucos. Alguns grão-duques russos achavam que podiam viver com os bolcheviques. Afinal, aquela maluquice não haveria de durar.

A plutocracia venezuelana levou algum tempo para perceber que o coronel Hugo Chávez e sua turma seriam capazes de tudo para ficar no poder.

As instituições democráticas brasileiras vêm sendo obrigadas a conviver com um novo leão a cada dia. O general Eduardo Pazuello disse que não participou de manifestação política porque Jair Bolsonaro não tem filiação partidária e o comandante do Exército acreditou.

Em seguida, o procurador-geral da República pediu o arquivamento do inquérito que investigava ações de cidadãos protegidos por foro privilegiado que incitaram atos contra o regime. Demorou cinco meses, pediu novas diligências para outros envolvidos, sem ter pedido providência alguma enquanto ficou com o caso.

Ao fazer isso, o doutor Augusto Aras bateu de frente com o ministro Alexandre de Moraes, um ex-secretário de Segurança que já teve a casa esculachada pela milícia. Má ideia. O ministro respondeu pedindo ao procurador que explique melhor sua posição. Se coisas desse tipo fossem pouco, o ex-prefeito do Rio Marcelo Crivella foi indicado para a embaixada do Brasil na África do Sul.

Caracas continua longe, a 3.600 km de Brasília. A sociedade brasileira tem uma complexidade e um dinamismo que faltavam à Venezuela. O andar de cima de Pindorama produz, enquanto o venezuelano vivia nas tetas das rendas do petróleo.

Ademais, o caminho para Caracas exigirá uma sucessão de crises até a eleição do ano que vem. Bolsonaro tem sido pródigo na criação de encrencas e na distribuição de provocações, uma por semana. Mesmo assim, precisa de um objetivo. Afora a obsessão pela permanência, nada oferece. As reformas liberais de Paulo Guedes estão no estaleiro, sabendo-se que a instabilidade política debilita seu projeto.

Com a conta da pandemia aproximando-se das 500 mil mortos, o Brasil firma-se como um pária bagunçado e incapaz. Se algum caminho venezuelano existe, ele não pode começar pelo desfecho,
a ruína de Nicolás Maduro.

Bolsonaro pode achar que Ricardo Salles é um excelente ministro. Falta combinar com um mercado internacional cada dia mais desconfortável com a presença de agrotrogloditas e piromaníacos na Amazônia. É improvável que o doutor resista até novembro, quando ocorrerá a reunião do meio ambiente de Glasgow e ele parece sinalizar que pretende cair atirando. Isso ficou claro quando Salles jogou o ministro Luiz Eduardo Ramos e o Planalto na frigideira de suas conversas com madeireiros. A sorte faltou-lhe quando seu inquérito tramita no gabinete de Alexandre de Moraes.

Com suas crises e sem agenda, Bolsonaro colocou o Brasil numa crise desnecessária. Afinal, nem todo mundo pode seguir o caminho do virologista Paolo Zanotto. Em abril do ano passado ele defendia a cloroquina e a formação de um gabinete paralelo para orientar o governo durante a pandemia. O doutor acaba de pedir uma licença de dois anos para pesquisar no Canadá, “sem prejuízo de vencimento”.

*Publicado na Folha de S.Paulo

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2 thoughts on “Caracas fica a 3.600 km

  1. Jose

    E está criado o paradoxo: como é que os petistas vão concordar com o Gaspari sem dizer que a Venezuela é o que é hoje, uma ditadura.
    E culpar “ozamericanu” não se aplica em nenhum dos casos.
    Se bem que lógica nunca foi foi o forte nem de petistas muito menos de bolsonaristas.

  2. SERGIO SILVESTRE

    Notamos as miserabilidade dos outros comparando com nossos famélicos mendinhos.Noto que os Venezulanos que pedem nos sinaleiros tem dentes perfeitos,não padecem de fome e nem maltrapilhos como os nossos.

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