por Thea Tavares
“Madeira, matéria morta
Mas não há coisa no mundo
Mais viva do que uma porta”.
(A porta – Toquinho e Vinícius de Moraes).
Há uma porta entre dois caminhos que parecem tomar direções opostas. Ao mesmo tempo em que ela separa esses traçados, basta apenas encontrar e girar uma chave que a abra para que, imediatamente, esse imóvel desapareça. O que se nota, então, é que os caminhos se fundem, se confundem, se completam, como se sempre fossem um único rumo, uma só via. Perde-se a noção de onde ele começa, quando termina; Sente-se apenas o sopro de uma orientação: seguir!
A presença imponente dessa porta, quando ainda fechada, demarca dois mundos inteiros; adia sua travessia, interrompe os fluxos. Por mais que se queira e se consuma em anseios, ela não pode simplesmente ser derrubada à força, nem assoprada, como na historinha do lobo mau e dos três porquinhos… Muito menos atravessada arbitrariamente, cabeça de papel, sob comandos e imposições alheias às vontades. Para que ela deixe de existir, é necessário, primeiro, que seja assimilada e tenha seu segredo decifrado. Ainda que se desvende em segredo, no silêncio de todo e qualquer entendimento norteador.
A porta desaparece pela magia dessa compreensão; É quando perde sua razão de ser e de funcionar como barreira, obstáculo, pois ela só nos pede que seja encarada com respeito e até com um grau qualquer de veneração, já que se ergueu em construção e para a evolução dos dois caminhos. Eles levam até ali, para que, diante de tal bloqueio, possa se tomar a decisão de dar um passo adiante ou mesmo de recuar, com receio de não conseguir alcançar o outro lado em passadas firmes, seguras, conscientes e corajosas.
O que ela tem de tão importante assim, afinal? Sua cor, cheiro, estrutura ou seus adornos? Nada disso. Ela guarda os registros das pegadas que afundaram sobre uma soleira imaginária, na indecisão ou em preces… Sob o peso de dúvidas paralisantes, mas essenciais ao caminhar.
Imagens descoloridas, rostos e cenas incompreensíveis alternam-se em sequência nesse sonho desperto, como slides projetados de um filme antigo ou o revirar veloz dos rascunhos de uma animação. Pronto! Já estava a um passo de vencer suas próprias e íntimas limitações.
Que bonito, que profundo, que complexo e que completo. Bonito mesmo é ir além da palavra, mostrando que estamos aprendendo o que está por trás dela. Legal!!!
Simone, o texto é carregado de simbologias e de imprecisões, mas sei que você compartilha do significado original dessa porta. E o bacana é que cada um que lê, a partir de suas próprias história e identificação, forma uma imagem nova e particularmente significativa dessa viagem maluca, do tipo “pega carona nessa cauda de cometa”. Pelo menos, é essa a intenção.