por Thea Tavares
Ela não desistia de mim.
A lembrança que vou guardar de sua animação para o trabalho e da renovação constante de energias para empreender novos projetos é compatível com a garra dos seus últimos momentos, aqui, conosco. Soube, ontem, que minha amiga não resistiu. Lutou por várias semanas contra a Covid-19. Nem sabia que o marido havia partido 15 dias antes… Coisa de pai, provedor, que vai na frente para preparar a mudança, organizar a nova morada. Era próprio, aliás, da relação deles esse cuidado.
Vou lembrar dela sorrindo porque era com um largo sorriso que me convidava sempre e todas as vezes para as atividades, agendas, reuniões, que eu nunca ia. Sinto-me em dívida, nesse sentido. Não era uma área que eu entendesse ou me dispusesse a dedicar tempo no cotidiano já atribulado para conhecer ou me aprofundar. Mas ela, sem insistir demasiadamente, sempre fazia tal convite com um sorriso esperançoso no rosto. Isso me enchia de importância, pois ela via em mim alguém que pudesse, de alguma forma, contribuir naquilo em que acreditava. E eu, para valorizar nossa amizade, sempre fui muito sincera em dizer que não contasse com a minha presença, mas apenas com uma baita torcida pelo seu sucesso naquela empreitada. E ela me sorria de volta. Gostava mesmo era de convidar, de incluir e de agregar.
Era com sorrisos também que aguentava minha sempre velha brincadeira e provocação de chamá-la pelo nome de uma pessoa muito parecida fisicamente, praticamente uma sósia. Eu incorporava o tiozão do pavê nessas horas, de tão chata e repetitiva que era a cena. Antônia sorria e nunca se ofendia com aquilo. Na verdade, era até um privilégio meu aquela condescendência. E sabia que era sincera; sua marca registrada também era expressar no olhar, no sorriso ou até na ausência deste as suas reações mais espontâneas. Mesmo que as conveniências da vida a fizessem tentar mascarar um sentimento, uma dor ou uma certa decepção, o canto do olhar deixava escapar uma pista daquele incômodo mal disfarçado.
Logo, aquilo passava e era sob a blindagem de um novo sorriso que ela voltava ao front e dava um boot no espírito, a fim de encarar outros desafios. Estive com Toinha há seis meses, durante um desses momentos de fuga do isolamento ou de desespero nos imperativos profissionais, intercalados com a “louquidão”, que é como a simplicidade de outra mulher, a Alice, define os períodos em que a Prefeitura decreta o fechamento total dos estabelecimentos comerciais. Mesmo sem nos vermos por longos períodos, o sorriso me vinha delicioso, em concordância às postagens engraçadinhas que publicava na rede social ou pelos “joinhas” que registrava para me dizer: “Óia, estou de olho! Estou te vendo, estou por perto, não me esqueci de você!”. Pensar nisso é materializar novamente seu sorriso.
Evitei muito de, neste espaço, chover no molhado de comentar sobre as dores e as perdas dessa pandemia e fazer coro às desesperanças que a inoperância ou perversidade do governo de plantão nos impõe ao nos desampararem. Mas se me proponho a abordar o tema agora, é para registrar, imprimir e demarcar o sorriso da Antônia na conta dessa tragédia. As redes sociais viraram um obituário e a cada dia só aumenta a constatação desse fato, seja pelas mudanças dos avatares nos perfis das pessoas ou dos grupos que demonstram tal luto. É a forma como a atualização da “contabilidade” da pandemia, retratada nos noticiários, nos chega, se aproxima e se apresenta para nos dizer com todas as letras: é gente, são pessoas queridas, que amamos e que nos são caras.
O sorriso da Antônia me traz à lembrança ainda o oitavo “sonho” de Akira Kurosawa e a sequência que retrata um funeral no “Povoado dos Moinhos”. Nesse episódio, que aborda o cuidado com a saúde espiritual, um ancião explica ao viajante que eles celebram e festejam, naquele instante de despedida, a vida bem vivida da pessoa querida que se foi e cuja alma seguirá seu caminho ao som alegre e no embalo das boas vibrações emanadas pela gratidão de quem aqui fica para honrá-la.
A pandemia não levou embora o sorriso de uma amiga, não apagou seus passos, seu brilho, sua integridade e nem calou suas palavras. Tudo o que Toinha fez, representou e defendeu eu verei novamente no brilho dos olhos de cada pessoa que abraçar seus motivos e que me convidar com doçura e com confiança para participar e contribuir nas suas realizações. Ela nunca desistiu de mim e eu não abrirei mão do seu sorriso também. A pandemia não vai me tirar o seu significado.
Agradeço imensamente por seu relato. A ausência da minha mãe é algo que não tem como mensurar. Onde ela chegava, inundava com sua presença forte e acolhedora.
Encontrar este texto me trouxe um pouquinho dela de novo. Pude reviver momentos lendo o que escreveu.
Em lágrimas, agradeço do fundo do coração por ter registrado aqui um pouco do que viveu com ela.
Uma descrição das muitas qualidades da pessoa forte e querida que minha mãe foi, sinto saudades de perceber esse trejeitos, compartilhar planos e sonhar com seus desfechos. Com certeza foi minha principal apoiadora e a primeira a apostar nos projetos meus e de minhas irmãs. Sonho com o dia que irei reencontra-la e a meu pai. Que dias cinzas tem sido sem ter a alegria e dinamismo de minha querida mãezinha…