6:54NELSON PADRELLA

DIÁRIO DA PANDEMIA

(*) Agora são dois a roncar. Antes, o ronco procedia à esquerda, na direção dos meus pés, no andar de cima. Agora temos também essa maravilha ao lado direito, no mesmo apartamento. É um ronco compassado e sinistro. Se estou à noite no mato e ouço um som desses me mijo todo. Estava aqui pensando. Na noite que tem ronco à esquerda não tem á direita. E vice-versa. Vai ver, é o mesmo roncador ou mesma roncadora que muda de quarto. Isso faz sentido. O conje ou a conja não suportando mais o ronco um do outro, deu o ultimato. Ou então não é nada disso, o casal seja inocente, e esse maldito cachorro ronca que é uma beleza.

(*) Marylin aprecia por-se à janela para apanhar a fresca. Principalmente quando o capitão atravessa o pátio, empertigado como se tivesse feito nas calças. Avisei à moça: É o tipo de cara que explodiria uma bomba aqui no condomínio. Falar isso pra ela e um cachorro latir é a mesma coisa. Pior: Costuma descer a alça do sutiã durante a sagrada passagem. O cara, nem aí. Essa mulher ainda vai acabar me criando cizânia com o casal.

(*) Recebo cartas de Portugal. E sempre que recebo essas cartas não preciso nem ler para saber o que está escrito. Querem-me de volta à terrinha. Sinto-me tão irritado que tenho vontade de arrancar do chapéu as insígnias de Portugal. Hoje, com as cartas na mão, não me contive e arranquei a peruca da cabeça e pisei em cima. E gritei com todas as minhas forças um brado retumbante. Em seguida, ouvi a resposta do meu povo respondendo: “Vá dormir, energúmeno!”

GRANDES PROBLEMAS DA CRISTANDADE: Francisco que me perdoe, mas São Bernardo é sim um cachorrão!

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