8:05NELSON PADRELLA

DIÁRIO DA PANDEMIA

  • Agora mudei de tática. NÃo faço o menor ruído, para preocupar os vizinhos. No segundo dia ouvi o que disseram: “A gente espera até começar a feder; depois arromba a porta” . Fiz aham com a garganta pra mostrar que estava ligado.
  • O moço da quitanda chegou com as verduras. Quando já se ia perguntei a ele se gostaria de ganhar um dinheirinho extra, sem muito esforço. “Oh! Sim” – respondeu imediatamente. Fiz cara de quem está pensando, e daí eu disse pra ele: “Eu também”.
  • Estendi todas as calcinhas da falecida – que guardo até hoje – no varal da varanda. Drapejam como bandeiras valentes esses símbolos de um passado glorioso. Uma vizinha me interfona, incomodada com o espetáculo. Explico que estão à venda para que eu possa angariar alguma grana para comprar comida.
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