7:18Muito vento, pouca chuva

Da coluna de Carlos Brickmann

Sergio Moro conseguiu uma façanha notável em seu depoimento de oito horas à Justiça: conseguiu repetir, sem um só acréscimo, aquilo que estava na sua carta de demissão, bem mais curta. Não há nada de novo, apenas mais do mesmo. Alguém esperava uma bomba? Há pouco menos de três mil anos, o poeta romano Horácio criou uma frase que, traduzida, é “a montanha pariu um rato”. Este colunista é do Interior e lá usamos uma frase mais simples: “muito vento, pouca chuva”.

Na verdade, a frase não é bem essa: o vento é vento, embora malcheiroso; e a chuva é de algo que não fica bem escrever.

Horácio é hoje pouco conhecido no Brasil, já que até as aulas de latim não mais existem. Mas boa parte de nossos líderes segue até hoje suas lições:
“Ganha dinheiro honestamente, se puderes. Se não, como puderes”.
“Vaiam-me na rua, mas em casa me aplaudo ao contemplar com afeto o meu dinheiro”.

Acredite se puder

A possibilidade de impeachment preocupa Bolsonaro – tanto que negocia o apoio do Centrão (que ele chamava de “velha política”, lembra?), o que inclui Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto, ambos já condenados por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, ambos já tendo cumprido pena de prisão.
Bolsonaro não precisaria se preocupar: o caro leitor pode acreditar que Lula também participa de sua sustentação política. Já se disse contra o impeachment.
Grandes advogados que sempre estiveram ao lado de Lula (Celso Antônio Bandeira de Mello, Marco Aurélio Carvalho, Lenio Streck) pedem ao Supremo que processe Sérgio Moro por prevaricação, pois deveria ter denunciado o presidente quando achou que tentava manobras ilegais.
Não, não pediram que Bolsonaro seja processado por ter tentado manobras ilegais, das quais o acusou Moro só agora.
Rui Falcão, ex-presidente nacional do PT, pediu ao Supremo que ordene à Procuradoria Geral que investigue se Moro cometeu outros crimes. A propósito, há fotos de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, exultando ao saber que os petistas denunciaram Moro.
Parece estranho, mas se explica:
1) Bolsonaro quer o voto religioso, e o pessoal do Centrão é terrivelmente religioso, sempre em busca de um terço;
2) aqui é Brasil, e Brasil acima de tudo. A aliança entre Bolsonaro & Filhos, Lula, Centrão lembra a Oração de São Francisco, que louva a paz entre os inimigos: “É dando que se recebe. É perdoando que se é perdoado”.

Feliz, por que não?

Bolsonaro deveria estar feliz: tem a seu lado os bolsonaristas, o Centrão, Lula, todos contra Moro e o impeachment. É o triunfo da Nova Política.

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