O tédio que se instala nos dias e nos mantém reféns de nós mesmos, nesta sala, esta grande sala com espelhos enormes onde fingimos não ver refletida nossa imagem. Logo chamarão para o jantar e iremos todos, pomposos, trajando nossas melhores roupas, sapatos lustrosos, o queixo sempre erguido com empáfia como se pudéssemos nos sentir orgulhosos.
À mesa nos trataremos com cerimônia como se não fôssemos uns quaisquer, e nos chamaremos de senhores, excelências, escondendo com dificuldade o tédio.
Tomaremos a sopa com colher de prata, o guardanapo mantido sobre os joelhos como foi ensinado aos senhores que nos precederam, ritual que repetimos porque entendemos que é assim que tem que ser. Ficaremos em silêncio nessa mesa enorme de toalha branca porque nada temos a dizer se não banalidades que não teriam lugar aqui.
Os gritos dos famintos na rua não chegam até nós, filtrados por grossas cortinas. O Convidado que está à cabeceira levanta-se e estica o braço para a frente, mas nenhum se nós se mexe, tolhidos que estamos pelo tédio.
O EXCLUÍDO COM SEUS MAIS DE 60 ANOS,CABELOS BRANCOS, BARBA POR BAIXO DE UMA MASCARA QUE PARECE UM VÉU E NÃO ESCONDE SUAS RUGAS,ESTÁ NA FILA A 5 HORAS PARA VER SE PEGA A “AJUDA ‘ DO GOVERNO PARA COMPRAR COMIDA.
BEM PERTINHO DELE A MORTE EM FORMA DE ESPIRROS E TOSSIDAS,ATÉ SABENDO QUE SE PEGAR A DOENÇA VAI PARA UMA FILA DAS UTIS E DEPOIS PARA UMA FILA DA FUNERÁRIA… POIS É..