Do correspondente em Brasília
Ainda de ressaca da micareta contra a democracia e a favor do vírus promovida por Bolsonaro e seus seguidores no domingo, o país recebeu ontem, logo cedo, a notícia da posse do novo diretor da Polícia Federal, não numa habitual solenidade, mas numa reunião que mais parecia coisa de partido clandestino proscrito, pelo nível de sigilo. Em posse sorrateira, sem convidados e sem discursos, confirmou-se o delegado Rolando Alexandre de Souza como novo chefe dos federais, nome que já havia sido adiantado aqui nesse espaço. Até a nomeação, o novo chefe dos federais era o braço-direito de outro delegado, Alexandre Ramagem, na direção da ABIN.
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Passada a posse, o novo diretor da PF foi logo submetido ao batismo de fogo da imprensa e das redes sociais. É que pouco tempo depois começou a circular a lista com os nomes de sua equipe, onde constava o do delegado Carlos Henrique de Souza para assumir a diretoria executiva da PF em Brasília. Até aí, beleza. É absolutamente normal o diretor compor sua equipe livremente. O nó da questão é que Carlos Henrique é o atual chefe da PF no Riode Janeiro, onde estão concentradas investigações muito sensíveis, como o assassinato de Marielle Franco, o poder das milícias e o escândalo da rachadinha, esse último envolvendo diretamente o Senador Flavio Bolsonaro e o indefectível Fabrício Queiroz. Embora seja um posto de relevo, a diretoria executiva não tem qualquer papel investigatório na estrutura da PF. Ficou então com jeitão de uma mal sucedida manobra para trocar o chefe da PF no Rio, exatamente como desejava – e não fez segredo disso – o presidente Jair Bolsonaro. Quem esteve com o novo diretor ontem descreve que ele ficou muito assustado com a repercussão.
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Experientes policiais federais avaliam que Rolando Alexandre demonstrou ansiedade no partidor, na ânsia de retribuir a nomeação, colocando em dúvida já no primeiro dia a integridade da sua gestão. Os federais têm trauma pelo desastre da gestão do ex-diretor Fernando Segóvia, que meteu os pés pelas mãos e ficou apenas três meses na cadeira, quase colocando a pique a boa avaliação da PF na sociedade, ao tentar interferir no inquérito do Porto de Santos, numa piscadela para Michel Temer. Na manobra de ontem, a independência da PF – que teve seu apogeu na Lava Jato – ficou arranhada e em risco.
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Isso explica porque o presidente da Associação dos Peritos Federais apareceu no horário nobre do Jornal Nacional cobrando de forma correta uma atuação republicana do novo diretor. E, mais simbólico ainda, que a poderosa Associação dos Delegados Federais não tenha soltado nenhuma nota apoiando a nova gestão, preferindo a prudência de esperar a evolução dos próximos movimentos. Na visão de gente que conhece o meio, Rolando Alexandre até tem um perfil técnico, mas terá suas ações e seu comportamento acompanhados de muito perto, mais até pelos federais do que pela própria imprensa. O grito silencioso na corporação é não aceitar interferência política e muito menos uma espécie de nomeação-tampão de Rolando de Souza, apenas no aguardo de solução jurídica que desobstrua no STF a nomeação do delegado Alexandre Ramagem, cada vez mais próximo da família Bolsonaro. Isso seria a suprema humilhação, dizem.
Adoro quando o sujeito tem “perfil técnico”. Nelson Teich tem “perfil técnico”. Os militares têm “perfil técnico”. O Ernesto Araújo tinha “perfil técnico” antes de ser nomeado. E assim vai. O que esperar de um país onde técnico de futebol é chamado de professor? Definitivamente a palavra “técnico” tem um significado camaleonico no Brasil.