de Nilson Monteiro
te dizer um soneto
parido pela manhã
e pela noite
limpo ou desconexo
um poema além do vento
te dizer um arranjo
o fundo da cor
a guelra do peixe
o frio do sul
o calor do azeite
te dizer uma rima
da disritmia
a maciez do doce
o grude do limbo
do fundo do poço
te dizer a loucura
do estouro da boiada
do recorte de uma foto,
cansada,
da nudez de uma menina
virgem
te dizer o mistério
dessas matas
os cristais do fundo do mar
o despencar do sol
ali, logo atrás
do canavial
te dizer as palavras
arrumadas para festa
tão simples, tão frescas,
tão vistosas,
tão lambidas pela luz
algo como o dia a nascer
algo como a noite a adormecer
te dizer frases
combinadas para a vida
intensas e finitas,
algo assim como a dizer,
com verso ou sem verso:
só sei te amar