por Thea Tavares
Naquele impulso inocente, era possível perceber toda beleza e verdade que cabiam dentro da criança. Foi no meio da audiência pública dos sem terrinha na Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP), no último dia 17 de outubro. O menino Pedro pediu a palavra para falar. As crianças que cresceram em comunidades que se constituíram em torno da reforma agrária já haviam emocionado os presentes com as narrativas e apelos para que as famílias não fossem mais despejadas, para que as escolas no campo não fossem fechadas, para que as políticas públicas não virassem as costas a sua gente. Mas Pedrinho ainda insistia em falar. Tinha algo muito importante para dizer e disse: “de quem é o desenho?”.
Todos riram da espontaneidade daquele momento. Nas mãos do piá, agitava-se um folder bem ilustrado, colorido, que havia sido colocado nos assentos do Plenarinho para que as pessoas se apropriassem do material e das informações contidas nele. Pedro encontrou mais de um folder no seu assento e o pensamento lógico, solidário e imediato que formulou foi: se estava sobrando um para ele, estaria faltando a mesma publicação para alguém. Lembrei na hora daquela canção de Tom e Vinícius, que diz assim: “se todos fossem iguais a você, que maravilha viver!”.
Pedrinho tratou logo de tentar devolver. Porque de nada valeria querer apenas restituir “o desenho” a quem teria ficado sem, se ele mesmo não se movesse e não tomasse uma atitude efetiva nesse sentido. Pedro se importou; poderia não ter feito nada ou pensado coisa nenhuma a esse respeito. Em sua inocência, expressou uma educação e valores que deveriam ser preservados e cultivados como princípios da vida em sociedade. Já foram, aliás. Senão nas leis e códigos de comportamento, mas nos preceitos religiosos e nos próprios fundamentos da humanidade. Estão apenas esquecidos, esgarçados, desvalorizados, quiçá desprezados e mal vistos.
Fico, de certa forma, constrangida pelo nosso mundo em admitir a emoção despertada pelo gesto simples e espontâneo do menino, mas os tempos em que vivemos justificam esse sentimento à flor da pele. Soa como um grito de esperança perceber que o adulto do futuro será uma pessoa edificada nas bases desse menino doce, que se importou com a necessidade do outro e que em uma atividade voltada justamente para discutir o tema dos direitos, teve uma atitude que exemplificou com maestria o assunto em pauta. Se o material foi deixado ali para ser entregue a todos, não era certo que faltasse a quem quer que fosse.
A criança me ensinou naquele dia que a resistência cotidiana passa pela beleza, pela alegria e pela delicadeza. Está praticamente impossível não reagir por impulso ou conseguir lembrar-se dos ensinamentos de Mahatma Gandhi, por exemplo, em meio aos enfrentamentos que a vida e que o cenário atual nos impõem. Claro que há momentos em que as circunstâncias exigem respostas firmes e contundentes, sob pena de sermos atropelados pela “desimportância” generalizada que se atibui às pessoas. Mas as certezas que temos, enquanto gente que se importa, partilha e se solidariza, nasceram de princípios e de valores como aqueles representados na pergunta do pequeno Pedro. Sorrir, amar, respeitar e projetar também são atos de resistência e de resiliência frente a tudo o que está posto no nosso caminho. Se não está fácil para ninguém, alguém precisa enxergar saída. Mas quem será? O Pedrinho colocou um baita espelho diante de cada um de nós.