De Paulo Falcão, no blog ‘Questões Relevantes’
Recentemente publiquei artigo chamando a atenção para a atualidade das ideias da filósofa Hannah Arendt nestes tempos de populismos iliberais à direita e à esquerda.
Um dos trechos citados, do livro Origens do Totalitarismo, dizia: “Politicamente falando, o nacionalismo tribal (patriotismo) sempre insiste que seu próprio povo está cercado por ‘um mundo de inimigos’ – ‘um contra todos’ – e que existe uma diferença fundamental entre esse povo e todos os outros. Afirma que seu povo é único, individual, incompatível com todos os outros, e nega teoricamente a própria possibilidade de uma humanidade comum.”
Hoje recebi de um amigo um outro artigo que dialoga de maneira direta com aquele e reafirma a perenidade de Arendt.
Detalhe importante: o artigo foi publicado por Carlos Alberto Montaner no México mas, infelizmente, soa verdadeiro aqui e em demasiados países mundo afora.
AS 10 CARACTERÍSTICAS COMUNS NOS GOVERNANTES POPULISTAS
Seu presidente é “populista”? Chamar de “populista” a um político ou funcionário é uma maneira rápida e segura de desqualifica-lo. Mas o que faz estes personagens serem “populistas”? A leitura recente, bem mais ampliada, deste decálogo inspirado em breve ensaio de Jan-Werner Müller (What is populism?), fez com que muitos dos participantes da minha palestra no México pensassem que falava de López Obrador. Não era minha intenção, mas se a carapuça serviu, que lhe vistam. Na minha opinião, o interessante sobre o termo é que se aplica à direita e à esquerda.
Primeiro: O caudilismo.
Geralmente, o populismo começa com a admissão de um líder ou caudilho a quem são atribuídas todas as virtudes e é designado, de fato, como o grande intérprete da vontade popular. Alguém que transcende instituições e cuja palavra se torna o dogma sagrado do país. Mussolini, Hitler, Franco, Perón, Castro, Hugo Chávez, cada um à sua maneira, são exemplos.
Segundo: O exclusivismo.
Somente “nós” somos os verdadeiros representantes do povo. Os “outros” são os inimigos do povo. Os “outros”, portanto, são seres marginais que não são sujeitos da lei e merecem nosso maior desprezo.
Terceiro: O complexo de Adão.
A história começa com eles. Daí o complexo de Adão, o primeiro homem. O passado é uma sucessão de fracassos, desacordos e traições puras. A história da pátria começa com o movimento populista que chegou ao poder para reivindicar os pobres e despossuídos após séculos de rendição de governos, vendidos à burguesia local e/ou a imperialistas estrangeiros.
Quarto: Nacionalismo
O nacionalismo é uma crença usualmente ligada à suposta identidade nacional. Geralmente é excludente e leva ao racismo ou outras formas de exclusão social. No campo econômico, leva ao protecionismo ou a duas reações aparentemente contrárias: Isolacionismo para não se misturar com o impuro; ou intervencionismo para espalhar “nosso” sistema superior de organização.
Quinto: O estatismo
Os populistas são quase sempre estatizantes. Eles acreditam que a ação planejada pelo Estado atenderá às necessidades do “povo amado”. Eles tendem a não acreditar no crescimento espontâneo e livre da sociedade. Os governantes populistas esperam a submissão total dos criadores de riqueza.
Sexto: O patrocínio
Os governantes populistas não têm apoiadores, mas clientes que lhes devem coisas. Eles amam “caçadores de subsídios”. Eles entendem que a política é gerar milhões de estômagos agradecidos que devem tudo ao governante.
Sétimo: A centralização de todos os poderes.
O líder populista controla o sistema judicial e legislativo, ou tenta fazê-lo. A separação de poderes é ignorada.
Oitavo: Os funcionários não estão a serviço da sociedade, mas dos populistas.
Eles controlam e manipulam os agentes econômicos, começando pelo banco nacional ou emissor, que se torna uma máquina de impressão a serviço da presidência.
Nona: A linguagem dupla
A semântica é transformada em campo de batalha e as palavras adquirem um significado diferente. “Liberdade” se torna obediência, “lealdade” vira submissão. Pátria, nação e líder se confundem em uma mesma palavra e qualquer discordância é chamada de “traição”.
Décimo O desaparecimento de qualquer vestígio de cordialidade cívica.
A linguagem do ódio é usada como prelúdio da agressão. O inimigo é sempre um verme, uma lesa pátria, uma pessoa dedicada aos piores interesses. Esse é o antecedente da destruição do outro. Antes de esmagá-lo, você deve eliminar qualquer vestígio de humanidade.
VOLTO PARA CONCLUIR.
Não é difícil reconhecer Lula, Dilma e Bolsonaro em vários tópicos do decálogo. Felizmente nenhum deles conseguiu completar a lista, ou seria extremamente difícil tirá-los do poder (como se vê em Cuba, Venezuela, Turquia, Rússia, Síria e Hungria).
Entender que democracia é liberal ou não é democracia torna-se cada vez mais um mecanismo de defesa das liberdades individuais e dos direitos políticos responsáveis pelas sociedades mais prósperas e livres que a humanidade já conheceu.
Ótimo artigo, só faltou citar Getulio Vargas no grupo dos caudilhos. O que fez o articulista publicar o artigo, pois os caudilhos são objeto de veneração pela esquerda?
Obrigado por colaborar com este necessário debate.
Ops! Hitler, Franco, Salazar e Mussolini eram de esquerda?
Denota que todos partem de diretrizes comuns algo planejado, todos, independente de suas açoes agem para os interesses de seus grupos com um suposto líder com dons carismático e suas ideologias de poder e domínio pleno dos demais.
A cumplicidade dos demais vai compondo a rede, a teia e por ser superficial, inconsistente o ciclo é curto, preso na linha tênue do fisiologismo e apoiado pela oligarquia parasita do sistema. O povo figura como objeto do sistema.