9:46Zilda Arns, muito trabalho, zero teatro

por Elio Gaspari

Está chegando às livrarias “Zilda Arns – A Biografia”, do jornalista Ernesto Rodrigues, que conta a vida da médica que criou a Pastoral da Criança e revolucionou as políticas públicas de combate à mortalidade e desnutrição infantil. Por diversos ângulos, a vida de dona Zilda é um tesouro. Junta a fé católica e o vigor pessoal. Seu irmão Paulo Evaristo foi cardeal, outro, tornou-se frei, e duas irmãs, religiosas. Zilda enviuvou aos 46 anos e criou cinco filhos. Quando morreu, aos 75, durante o terremoto do Haiti de 2010, ela era um símbolo da força da mobilização comunitária e do valor das soluções simples. Com 200 mil voluntários, a pastoral cuidava de 1,35 milhão de crianças. É palpite, mas sua beatificação pelo Vaticano será uma questão de tempo.

A virtude da narrativa de Ernesto Rodrigues está em ter mostrado, sem estridências, como é dura a rotina de quem quer fazer o bem. Em 1983 ela foi defenestrada do serviço de pediatria do governo do Paraná por motivos puramente políticos. Quando começou a formular o trabalho de uma Pastoral da Criança, teve que ralar nas ciumeiras de outras iniciativas da Conferência Nacional dos Bispos. Sua ação comunitária foi hostilizada pelos salvadores da pátria que viam nela uma política meramente assistencialista.

Farmacêuticos chegaram a se mobilizar porque seu trabalho reduzia a venda de remédios contra diarreias de crianças. A burocracia internacional do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) às vezes ajudava, às vezes atrapalhava. Dona Zilda teve bons aliados: o irmão cardeal, o bispo d. Geraldo Majella, Roberto Marinho e o ministro da Saúde José Serra. Outro ministro (ela lidou com 28) queria engessar a pastoral e gentilmente retirou-a da sala. Ninguém conseguiu pespegar-lhe um rótulo político. Ela era uma máquina a serviço das crianças. Só.

No dia 20 de janeiro de 2010 Zilda Arns estava no Haiti e passou o dia com religiosos, num dos anexos da igreja Sacré Coeur, e assistira a uma missa. A terra tremeu e restou apenas um monumento com a forma de crucifixo.

Ridículo

Os juízes federais que ameaçam fazer greve para defender o penduricalho do auxílio-moradia podem entender muito de direito, mas não têm senso do ridículo.

Se eles pararem, farão menos falta que o pipoqueiro do cinema. Os cidadãos que pagam seus salários e auxílios esperam anos por um despacho dos meritíssimos. O doutor Luiz Fux ficou três anos sentado em cima do processo que arguiu a inconstitucionalidade do penduricalho e nenhum juiz reclamou. Afinal, era um esperteza a favor deles.

*Publicado na Folha de S.Paulo

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