17:20ZÉ DA SILVA

O jardim tomado de pragas fez aparecer o menino com o veneno e a bomba. Olhei pra dentro e vi que merecia uma dose forte. Nasci com todas as ervas daninhas que o ser humano tem conhecimento. Elas se enraizaram tanto que algumas, em certas ocasiões, saem pela boca para aterrorizar interlocutores. Há espinhos venenosos, musgos pegajosos, bichos peçonhentos. Um sol teima em querer vencer essa massa disforme que cheira mal. Às vezes consegue disparar um raio que é capaz até de me iludir – e a quem deixo chegar perto. O menino está lá bombeando e aspergindo. Vou e digo que não quero um jato daquilo. Levo uma taça de cristal e peço que ele sirva o líquido direto do recipiente que carrega às costas. Ele parece dopado pelo veneno. Me serve. Eu viro num gole. Não há gosto, minhas entranhas não queimaram, muito menos o que há de ruim. Deito para esperar o sono eterno. Acordo com a sirene do apocalipse do alarme da casa em frente. Ligo a tv e vejo um corpo mutilado a faca e uma cabeça estourada por tiros de calibre 12. O apresentador do telejornal está com cara de satisfação. Tomo um gole de café de anteontem. Abro a cortina. As flores do jardim da nossa casa…

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