18:38ZÉ DA SILVA

O filme não lhe saía da cabeça. “Réquiem para um sonho”, que considerava o melhor sobre o problema de quem entra no escuro do vício. Pensou assim enquanto cambaleava pelo corredor que levava ao barraco onde morava nos fundos de um terreno do subúrbio. Conseguiu entrar. Ainda era dia. Se enfiou de roupa e tudo embaixo das cobertas. Tremia de frio. Não era delírio o que tinha feito. Poucas horas antes, no trabalho, no banheiro, além de pegar água da privada para diluir sua droga, tinha lambido o plástico onde ela estava acondicionada, salivado, colocado o cuspe para dentro da seringa e, finalmente, injetado no corpo. Uma das cenas do filme era parecida, porque ele também se espetou em cima de uma grande ferida feita pelo costume de só procurar o canal de sangue ali. O personagem que não lhe saía da cabeça perdeu o braço, amputado. Ele foi levado às pressas para um hospital, onde evitaram uma septicemia fatal. As lembranças continuam. Ele olha a grande cicatriz no braço direito. Toma um copo de água e fica feliz por ter sobrevivido para contar a história.

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